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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Expectativas

- É para o meu 'versário?

É para o seu aniversário, Cacá. Com essa pergunta, ela me desmonta inteira. Porque então eu olho pra ela e penso: é aniversário dela. Da minha filha. Minha Ana Clara. Quatro anos. E ela tem três. Só três. E ao mesmo tempo, tudo isso: quase quatro anos. É tão confuso. Tão pequenina e tão grandona.

Hoje seria aniversário da minha mãe. Um dia em que eu me lembro dela com saudade, e ao mesmo tempo estou com a cabeça em outro lugar - um lugar de alegria em que a minha filha faz aniversário.
Deus me abençoou a mandando nesse dia, o Dia das Bruxas, que já tinha tudo pra ser um dia legal e ganhou uma estrela diferente.

- É, filha. Você gostou?

- Gostei, mas gostei mais de você!

Eu também, Clara. De tudo que estamos fazendo para o seu aniversário, eu gosto mais de você.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Hoje pode deixar que eu conto

 - Era uma vez uma princesa muuuuito linda, e ela queria ir ao baile. Mas a madrasta dela falou assim (fecha o cenho e estica o dedinho em reprovação) "não vai ao baile! vai limpar a casa". Daí ela chorou, chorou. Apareceu, então, (pausa dramática) uma fada madrinha! Que fez pra ela vestido, carruagem, montes de coisas. E ela foi. Chegou lá, o príncipe só quis dançar com ela! (fecha o cenho, de novo) Não quis saber de madrasta, de irmã, de nada! Só com ela. E os dois se casaram e foram felizes para sempre. E fim!

E fez falta o sapato? Fez falta nada!

=)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre gratidão, empoderamento infantil, fé e outras histórias, num textinho muito curto

Na cama, chamegando antes de dormir, olhei pra ela e para o menino no meu peito e pensei: como a vida mudou depois deles, por eles. E para eles.

Estiquei minha mão e fiz um carinho nos cachinhos dourados da Ana Clara:

- Filha, obrigada. Obrigada de ter vindo para a minha barriga.

Tantas vezes minha mãe me agradeceu por isso, eu nunca entendi. Hoje eu entendo, mãe. Mas também não soube responder, numa vida inteira, tão bem quanto a minha pequena de quase 4 anos respondeu:

- De nada, mamãe. Sabe, foi Papai do Céu que me escolheu.

Deu aqueles nós na garganta que são apertados que só, mas que também são gostosos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Conquistas e Inseguranças

Ontem Lucas andou 40cm.

Foi só da poltrona até o sofá, terminou com ele se jogando quando chegou, foi no susto e sem pensar, mas andou.

Eu fiquei atônita.

Perdida entre o "ele andou!" e o "foram só 40cm, e meio bambos". No fundo, ciente de que ele está quase lá.

E é meio louco, isso.

Ver nossos filhos cada vez conquistando mais habilidades. Ficando cada vez mais aptos para enfrentar o mundo. E sentir, lá no fundo, que eles precisam um pouquinho menos de nós. Cada vez um pouquinho menos.

E torcendo para participar de cada etapa. De cada novidade.

Eu peço a Deus que dê a eles toda a saúde do mundo. E que me dê saúde, também, para eu estar ali, presente, apoiando cada primeiro passo ou os que vierem em sequência, vendo minhas maiores preciosidades construindo suas histórias...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Te cuida, México!

Nunca houve dúvidas do talento nato para o drama. Já começou na maternidade. Enquanto pesavam, mediam, a enfermeira ao meu lado me disse, no meio do choro que vinha do fundo do corredor:

- Ó, tá vendo o choro? Sentida...

Eu ri. Óbvio que ela estava só puxando assunto e tal. Clara tinha acabado de nascer, como podia ser "sentida"?

Está aí, Ana Clara, aos 4 anos. Sentida.

Ontem, sentada na mesa depois de jantar, pediu pra tia não ir embora, porque eu ia ao sapateado.

- Mas eu tenho que ir, Cacá...
- Você vai embora?
- Vou, preciso de ir.
- E a mamãe vai ao sapateado?

Respondi, lavando a louça:
- Eu vou!

E ela, num muxoxo:
- Já sei. Vou ficar sozinha...

Não deixo a Clara sozinha nem pra ir tomar banho no banheiro dos fundos da casa, diga-se passagem. Ela vai comigo, ela e o Lucas. Mamãe é neurótica, thank you very much, mas não ficam, mesmo. Então da onde veio esse comentário? Com o dramático "já sei", ainda, com coisa que a pobre vítima passasse pelo abandono a torto e direito.


E o Lucas.

O Lucas mal tinha saído da minha barriga, nem todo pra fora estava, deu um resmungo. Depois, o choro alarmado, reclamado. Chegou perto de mim e parou de chorar, mas vez por outra ainda vinha o grito inconformado de "eu não acredito que vocês me tiraram lá de dentro!".

Mas não é o choro "pobre de mim". É o choro "quero ver o seu gerente! eu vou ao procon".


Eles vieram protagonistas, ambos, cheios de anseios para escrever suas histórias. Histórias de personalidade, coragem, dramas e bravezas, mas também alegrias e bondades. Conhecê-los, este é meu maior desejo e meu melhor prazer.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Sempre presente

Clara e Lucas ganharam presentes de Dia das Crianças de gente muito querida, e eu fiquei exultante ao vê-los exultantes. Adoraram. Ana Clara se mostrou a médica, motorista de carruagem, dona de Polly Motoqueira e fotógrafa da Elsa (câmera do Frozen...rs) mais feliz que eu poderia imaginar. E o Lucas se diverte com carrinhos, boizinhos, bola que toca musiquinha.

Amei que meus filhos sejam queridos e tenham ganhado presentes lindos, mas eu me sinto meio desafiada de ensinar a eles uma coisa em que acredito - que é preciso presença, especialmente a dos pais. Então o dia foi todo pensado pra eles - mais pra Ana, confesso, que é a criança que já se liga mais em datas comemorativas, mas também pro Lucas -, e envolveu comidas que eles gostem, brincadeiras, bagunças, fazer brinquedos, fazer uma guloseima gostosa... essas coisas.

No fim do dia, chamei a Clara para o meu colo.

- Como foi seu Dia das Crianças?
- Legal! - não aquele "legal" que a gente fala no automático, aquele "legal" cantado que só as crianças sabem dizer e enchem o coração da gente de alegria.
- Que bacana, filha! E o que você mais gostou?
- De fazer bolinho!

Fizemos "cupcakes" - mas eu ensino a Ana que cupcakes são bolinhos, aqui no lado de baixo do Equador. De cacau. Ela ajudou a fazer e a comer...rs.

- Eu também gostei muito de fazer os bolinhos! E os presentes que os tios e padrinhos te deram?
- Eu gostei muito! E do seu...
- Ah, o ursinho que nós fizemos junto?
- Não... a luva de princesa.

Vi no youtube um tutorial de crianças fazendo luvas. Consiste em pegar uma meia, cortar do jeito certo a pontinha do pé e você tem uma luva daquelas que prende entre os dedos, sabe? E ainda dá pra criança mexer a mão com bastante liberdade. Fomos almoçar na Dedé e eu perguntei se ela não tinha um par de meias finas, brancas, para testarmos. E ela tinha. E no fim do dia, Aninha estava me agradecendo pelo "presente" que consistia numa meia limpa, mas usada, que levei mais ou menos um minuto pra cortar e colocar nos braços dela.

Nessa minha onda de vencer o espírito de manada, como eu chamo, resolvi valorizar com minha filha as coisas importantes.

Não é importante que ela tenha o vestido LICENCIADO da princesa. Ou a luva IGUAL a da princesa. Ou que os presentes tenham ETIQUETAS. O importante são as pessoas. As relações. Sentir-se bem. Respeitar-se e aos outros. Respeitar a nossa morada, no sentido mais local e no mais universal. E meias são luvas. E tecidos são vestidos completos. E a boneca que vai no dia do brinquedo da escola é a mais picareta que pode haver, mas que importa, se a Ana gosta. O mundo consumista nos aperta, tem horas. O mundo que esquece o que vale a pena. Mas a gente vai se virando, se desvirando, e nunca esquece!...


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cantorias

Assistindo a apresentação de ballet da menininha por quem somos todos apaixonados. Ana Clara de olhos fixos no palco. Batia palma, alguns "uhull!", algumas perguntas. E o Lucas...cantando.

Cantando, modo de dizer. Gritando. Mas a intenção era cantar.

Intervalos para mastigação enquanto eu dava o lanchinho da tarde, com direito a "huuummm" sonoros.

Volta pra cantoria. Durou até o fim do espetáculo.

Ontem, enquanto eu fazia a comida e os dois brincavam na sala, ouvi uns acordes. Achei o neném em pé, rindo a valer enquanto batia a mãozinha nas cordas do violão do pai.

Na minha casa, tem música.

Na minha casa, tem vida.

Na minha casa, tem luz - de Clara e Lucas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Zeca

Mostrando as pelúcias que apareceram no comercial de TV na casa da tia:

- Mamãe, a gente pode fazer um ursinho desses?

- Oi, Ana?

- Fazer um ursinho desses. Ou um canguru. Um bichinho, desses.

Fazer.
Não "comprar". Fazer.


..."A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas
E assumir os erros que lá vem
Se a alma finca pé os medos somem
Menino nunca deixe que te domem"...


Atualizando projeto de Dia das Crianças. Os panos de prato pintados vão esperar um pouquinho, tenho um ursinho pra fazer.

Os olhos e as fotografias

Fomos ver a roupa do ballet, ontem. Roupa maneira de dizer: o figurino.

A coisa toda já começou agitada, uma vez que a mãe da criança esqueceu da prova. Ok. Liga a professora: "tudo bem? Por acaso você esqueceu o teste da roupa da Aninha...?".

Esqueci. Mea culpa. Fomos para o ballet.

A Aninha, meu doce de abóbora com coco, quando eu pedi desculpas por ter esquecido:

- Tudo bem, mamãe. Eu também esqueci. Ainda bem que a Tia Dani ligou!

Tentei explicar a ela que, aos (quase) 4 anos, é mamãe que tem que lembrar. O senso de responsabilidade da Ana é muito precoce, e não adiantou muito dizer isso.

Chegamos lá com todo mundo já provado. É a nossa vez. E então a professora mostrou a roupa.

Eu acho que nunca vou esquecer essa coisa tão pequena e tão grande, "a primeira prova da roupa do ballet". Clara ficou esse misto de surpresa e felicidade, empolgação, ansiedade, tudo junto. Ficou olhando a roupa e sorrindo, com os lábios e os olhos, as mãozinhas tocando tão devagar no tecido como coisa muito preciosa que a gente tem até receio de encostar.

E aí vieram as perguntas:

- Gostou, Aninha?

- Que lindo, né, Aninha?

E ela só balança a cabeça, os olhos pregados no vestido. E depois no espelho, o vestido já no corpo dela.

- Faz assim, pra você ver a sainha pulando!

E a Ana faz assim pra sainha pular. A mãe derretendo aos pouquinhos - e nem era do calor.

Fico sempre dividida quando acontecem essas coisas. Queria ter uma foto do olhar da Ana ao ver o seu vestido. Mas será que eu queria ter uma foto do olhar da Ana ao ver o seu vestido? Talvez essa seja a lembrança mais completa - e a mais doce. A naturalidade de lembrar, permeada por todas as nossas sensações naquele momento. A sensação de ver minha filha mais próximo de algo que é importante pra ela, que ela quer muito, que foi a sua primeira decisão na vida - mamãe, quero fazer ballet... Ela quer ser bailarina - e eu o digo no sentindo mais despretensioso que pode haver: não no sentindo profissionalizante ou de grandes expectativas, mas no sentido do hoje. Hoje, a Ana quer ser bailarina. E ver o rosto dela, o brilho no olhar... Me valeu cada minuto dessa maratona de busca-veste-aprende a fazer coque.

- E o que você achou, filha?

- Lindo. Mas eu achava que aquela parte, assim, ia ser branca.

- É, mesmo? E agora, que você viu que é de outra cor?

- É mais bonito, ainda!


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Raízes

- Mamãe! A Mirna achou a saia...

A saia, que ela usou quando tinha um aninho. Estava fazendo um aninho. Do meu trabalho fico me perguntando: será possível que ainda entra nela, essa saia?

- Que legal, filha! Nós vamos lavar, pra ficar direitinho.

- No meu aniversário, eu não vou nem de Elsa e nem de Branca de Neve. Eu vou, sabe do quê?

- Do quê?

- De Princesa Peach! De colant, e da saia que a Mirna achou...! Vou ficar linda!

- Clara, você é MUITO linda!

- Se você quiser, pode ser o Mário...!

Ela diz que vai de Peach.
E eu posso ser o Mário! o/

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quem não tem cão

Fui comprar roupinhas que o Lucas precisava, achei justo comprar alguma bobeirinha pra ela.

- Mamãe, pode ser um relógio? Eu quero um relógio...

Considerando-se que o relógio em questão custava sete reais, achei a escolha excelente.

Indo pra casa perguntei as horas:

- Tem um cinco... e depois um dois. E outro dois.

- Cinco e vinte e dois, então.

Depois, à noite, foi mostrar o relógio pra tia:

- Ó, Dedé! O relógio que a gente comprou na tia Regina...!

- Que lindo! E que horas são?

Olha o relógio fixamente por alguns segundos. Depois, a resposta:

- É hora de jantar!

^^

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Quando a gente lembra

Estamos todos dormindo na cama compartilhada, que é na verdade uma somatória de colchões compartilhados - resultado da descupinização, que deixou os quartos com cheiro forte, da viagem do pai, das nossas carências, disso tudo.

Os dois estavam agitados, pulando, subindo, pegando, caindo.

Apaga a luz. Deita todo mundo. Shhhh... Todo mundo dormindo. Todo mundo quietinho pra dormir. Chega, gente. Vamos.

Ufa. O neném dormiu.

- Mamãe... posso dormir no seu colo?

Eu abracei e ela chorou de saudade do pai. Dormimos assim, agarradas.

No meio da noite acordei e vi que ela tinha se descoberto. No escuro, na incerteza das formas, eu peguei o edredon pequenino e joguei sobre ela - pelo menos esquenta um pouquinho.

O edredon, de berço, cobriu a Ana. E ele estava virado, sabe? A parte que deveria ficar na horizontal ficou na vertical, mas até que deu pra cobrir a Ana. E eu pensei, como ela é pequenina. Ela, a primogênita, a irmã mais velha, que me ajuda tanto, que vigia o irmão, de quem eu cobro às vezes demais... Ela é pequenina. E dormiu com saudades do pai...