Follow by Email

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Como?

Como delegar a educação daqueles que são mais importantes para nós?

Como delegar os cuidados, a presença, a criação?

Como delegar a que terão acesso, como terão acesso?

Como aceitar a verticalização do saber, sabendo que o conhecimento é horizontal, totalmente horizontal?

Como aceitar que o olhar seja guiado, dirigido, orientado, quando tudo que precisamos é SER, ser para querer descobrir, para querer aprender?

Como?

Dormindo e acordando sob a questão. Fazer a vida dos meus filhos na escola ou fazer da VIDA sua escola.

Mas ah.... o sistema.

E aquilo em que eu acredito?

Que meus filhos não precisam se encaixar no mundo - precisam MUDAR o mundo. Precisam dobrá-lo e desdobrá-lo. Transformá-lo num mundo que os mereça.

Mas e se eles me cobrarem de simplesmente serem uma criança 'normal'?

Bom... Se eles me cobrarem de simplesmente serem uma criança 'normal'... meu trabalho foi mal feito.

Não soube ensinar a eles aquilo que mais acredito: que não há normalidade.

Que não há que se encaixar.

Que se você se preocupa com o que os outros pensam de você, é porque você pensa sobre os outros. E se você pensa sobre os outros... há mesmo muito com que se preocupar.

Dormindo e acordando na mesma questão.

Como?

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Elaborando

A justificativa padrão pra não carregar um monte de coisas é "eu só tenho duas mãos". Com coisa que fosse "só". Com coisa que a humanidade toda não tivesse "só" duas mãos pra resolver tudo.

Aí me sai com a nova, no dia que os amiguinhos estão em casa e ela me pede os materiais de desenho. Dei todos.

- Mas, mamãe, você me ajuda? É muita coisa pra eu carregar, e eu não sou o Hulk...

Ora, essa.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Dúvidas que a escola não sabe responder

Uma mistura de sentimentos toma conta de mim nas últimas semanas. Rafa indo viajar, as crianças ficaram doentinhas, tantas dúvidas, tantas coisas pra ajustar.

Fiquei olhando a Ana deitada tomando soro e pensei, chega. Não vou fazer isso com a minha filha. Não vou, mais. Ela vai ficar em casa, pelo tempo que for necessário, e se precisar explicar pra autoridade quando ela tiver mais que quatro anos, ok, eu explico. A gente conversa e se entende.

Estou aí num ritmo louco de pensar, repensar. De ser questionada. De explicar. Como seria bom ser uma pessoa decidida. Ter certeza das coisas que eu penso e bater o pé, mesmo que eu estivesse completamente errada. Infelizmente, eu pondero. O tempo todo, aliás. E isso dificulta tudo...

Estudo desescolarização em cada brecha que o dia me dá. Ontem cheguei em casa do trabalho e estávamos tocando piano. Ela tem aprendido algumas coisas, quase que incidentalmente. Daí de repente a brincadeira mudou e estávamos sendo lobos. E o Lucas estava mamando. E então começamos a conversar sobre a loba que amamentou duas crianças, contei a ela a lenda da fundação de Roma.

"Rômbulo e Remo?"

"Rô-mu-lo".

"Rômbulo?".

E ela me contou outras coisas. Fomos conversando. Eu olhava pra ela e pensava, como quero protegê-la... Como quero que ela seja feliz...

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

The "Pereba" Never Ends

Tava na alergia. Melhorou. Escola. Chegou esquisita. Febre. Vômito. Virose. Acorda boa. Passou. Ufa. Dor de cabeça. Dá pra ir passear. Quer ir embora. Vômito. Febre? Não. Descansa. Acorda mais ou menos. Comeu bem, tá passando. Dor de cabeça. Vômito. Tá sem febre. Vamos de novo lá. Faz exame. Põe no soro. Espera o exame. Nada. Virose. Ou alergia. Bora pra casa. Deu febre no Lucas. Espera que é a virose. Passou a febre. Voltou a febre. Tá baixinha. Agora passou de vez. Empipocou. Lá vamos nós, de novo. Virose. Mas, sabe? Pode ser também alergia.

Inspira. Expira. Inspira. Expira.

Graças a Deus lá fora brilha o sol, e as crianças amanheceram melhores.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Coisa de Hormônio

Ela chegou atacada, ontem. Já estava atacada desde cedo, coisa de criança que dormiu pouco. Foi pra escola e chorou pra ficar. Chorou na volta - porque esbarrei no pé dela, porque não dei corda por ela ter chorado depois que esbarrei no pé dela, porque sim, porque não, porque.

Normalmente, isso me deixaria possessa. Coisa de mãe louca, mesmo.

Mas ontem... Ontem a humanidade me atingiu, e eu simplesmente fiquei com dó.

Ainda assim, a eduquei - não fiquei cedendo pra cada draminha. Mas tive dó. Ela estava com sono. Cansada. Irritada sem saber porque. Perdendo a chance de brincar com a gente, no fim do dia, porque não estava legal. E aí... poxa, que pena. Tadinha. Eu só queria que ela melhorasse logo.

Dei comida.
Coloquei no quarto escuro.
Ela pediu um desenho.
Ok. Desde que não seja um desenho muito agitado.

E então, de repente, ela estava de pé me mostrando a coreografia do ballet. Me pedindo para mostrar pra ela como se dança no sapateado. Brincando de zumbi - "agora sou eu que vou morder o papai!", "fala assim, ó, 'braaaaaains". E rindo, alto.

Quando tive que sair, achei que seria outro chororô.

- Tchau, mamãe! Péra! Meu beijo!

Beijo estalado na bochecha e eu fechei a porta atrás de mim. Ouvia ela brincando com o pai e o irmão na sala de casa. Eu saí já com saudade, mas no meu rosto tinha um sorriso. Estava feliz, no fundo. Com ela, comigo. Sem briga. Anas 1, Hormônios 0. Vitória do time da casa.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O Sagitariano lá de Casa

Fiquei grávida, fui ver o signo das crianças. Eu não acredito em horóscopo, mas sei características predominantes dos signos, quais pertencem a que elemento, soube por muito tempo como fazer cálculo de ascendente e queria saber fazer o de lua. Ia ficar bonito. "Eu sou de gêmeos, com ascendente em gêmeos, e lua em". Não sei a lua, fica faltando, tá vendo? Pena.

A Clara não precisei nem de calendário pra saber. Escorpião, como a minha mãe. Fiquei preocupada com o lance dos decanatos - minha mãe tinha altas teorias sobre o primeiro, o segundo e o terceiro decanatos de escorpião. Mas aí, Clara ignorou esse negócio de "data prevista para o parto" e chegou antes, no mesmo decanato que minha mãe nasceu, no dia das bruxas pra ficar ainda mais doce essa data. Com coisa que outro decanato fosse ser o problema, mas entenda que foi, assim, como um bônus.

E aí, o Lucas. Sagitário. O signo do qual eu conheço menos representantes. Me sobrou ler as resenhas na internet: o signo da aventura. Opa. Bom, sabe. Horóscopo. Eu nem acredito mesmo nisso.

Aí estamos aí, com nove meses do neném!

O neném grande e com dobrinhas, risonho e bravo.

Que engatinha até o sofá, daí fica em pé, vira descostas para o sofá e tenta vir, ANDANDO, até a gente, no meio do tapete. Capote n° 01. Viva o tapete de EVA e a coordenação do neném, que caiu de joelhos.

Que fica em pé em paredes lisas, tenta andar apoiando, sai deslizando pela parede. Capote n° 02.  Viva as almofadas e o papai, que viu a arte e já posicionou todas estrategicamente, por ali.

Que não aguenta esperar a gente fazer os furos pra pendurar o varal novo e fica em pé no carrinho. Quem deixou o neném sem prender o cinto do carrinho? Bom. Agora o neném já está em pé. Sem capote, que é muito perigoso, e a mamãe tava do lado.

Aí ontem tava fazendo montinho na gente. Com nove meses.

Qualquer dia, mesmo não acreditando, vou escrever o horóscopo da mãe do bebê de sagitário. Se segura, mamãe!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Perguntas Quixotescas

Clara está na fase das perguntas e tem uma mãe que mais faz complicar do que responder. Vejamos como nos sairemos nisso.

O que me acontece - e apesar de não me achar certa em nada, também não penso que isso seja errado - é que prefiro deixar que ela tire suas próprias conclusões. Recuso a receita de bolo de verdades prontas que são passadas e repassadas às crianças. E isso dificulta.

- Mamãe, homem não usa batom, né?
- Por quê?
- Porque não usa. Né?
- Mas por que não usa?
- Não sei. Porque acho que é de menina.
- Quem te falou?
- Ninguém.

(mentira. É que se ela fala quem falou, eu falo "pode falar pra 'fulano', 'ciclano', etc, que não é assim, etc, etc, etc". Então anda escorregadia quando eu pergunto "quem?")

- Hum. Bom, homens podem usar batom, se quiserem. Eles também tem boca.
- Tem homem que usa batom?
- Tem. Eu tive um professor que usava batom preto!
- Preto?!
- É.
- O papai não gosta de batom.
- Não. Também tem menina que não gosta de batom. A mamãe não gosta de batom, mas a mamãe é menina. Certo?
- Certo.
- Então, funciona assim: todo mundo pode fazer suas escolhas e assumir as responsabilidades que vem com elas. Entendeu?
- Entendi.

(não é porque ela não sabe o que significa "responsabilidades" que ela não entendeu. Eu acho que entendeu, mesmo)

Teve o drama do ballet, também, recentemente, mas essa é outra história.

Desde que a Clara saiu da nossa bolha - leia-se, foi para a escola - vieram muitas coisas boas. E vieram essas coisas. Mas não tem nada. Enquanto o mundo vai construindo quimeras na cabecinha dela, eu vou ensinando minha pequena a enxergar bem os gigantes - são só moinhos de vento...

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O Dia em que a Mamífera Perdeu a Batalha do Mamá

Amamentar foi (e é), sem dúvida, a coisa mais louca que já me aconteceu depois de ter filhos. E me aconteceu em todos os níveis - físico, psicológico, emocional. Me descobri forte e frágil, extenuada e resistente, abri mão de algumas coisas em prol de tantas outras.

Aí essa noite eu precisei usar um creme dermatológico e fiquei com medo de amamentar.

Aí o Lucas tomou o leite artificial e veio para o meu peito só pra divertir, aconchegar e dormir.

E aí... ele dormiu.

O menino que eu digo pra todo mundo "desde que eu voltei a trabalhar ele não dorme, não sei porquê, só fica no meu cheiro, só quer dormir no peito, acho que sente minha falta". Este menino. Ele estava com fome.

Eu me senti derrotada. No meio da noite, em silêncio, no escuro, com ele no meu aconchego, dormindo sereno, chorei. Porque sei que tem todo o "ah, mas o leite humano é de digestão mais fácil, o leite artificial pesa no estômago e ele dorme, mesmo!". Mas antes de eu voltar a trabalhar, ele dormia. Como dormiu hoje, até as 05h da manhã. E era só o meu leite. Ou seja, voltar a trabalhar mexeu com a minha produção, eu sabia, e mexeu neste nível - de não deixar o meu filhote dormir direito.

Ele vai continuar tendo o meu peito. A mim. Sempre. Porque sei que se eu desistir e "vamos logo dar a mamadeira que daí todo mundo dorme!", minha produção vai diminuir ainda mais e logo nosso vínculo mamífero será transposto. Sei que vamos transpor isso, mas não vou facilitar. Vou é matusquelar e buscar e tentar fazer as nossas noites mais serenas, como for. Ele em primeiro lugar, sempre. Mas há que se ter um jeito.

Quem disse que os filhos nos ensinam em alguns meses tudo que mais de 20 anos de ensino formal não são capazes de ensinar? Pra você, minha reverência.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O Brilho dos Olhos

Eu confesso que ainda estava na dúvida. Mesmo depois de ter batido o pé que queria tanto. Esse negócio aí de dançar depois de velha... sei lá. É mico? É desejo? Bom. Vamos levando.

Aí ela saiu do ballet.

- Mamãe! A tia Dani mostrou a minha roupa! É assim, é assada, eu vou ser isso e aquilo, muito brilho! E tem o negócio pra segurar o outro negocinho, e preciso de arranjar um desses pra ensaiar, a tia Dani falou, e a roupa é linda, e eu vou dançar no palco, e eu vou ficar muito linda, e as meninas, e eu vou dançar bem bonito! Pra você e o papai e o Lucas... Espetáculo!

Empolgadíssima. Eu dei uma mudada na fala, pra não entregar o ouro pra quem vai assistir o espetáculo - o elemento surpresa!rs -, mas ela sabe tudo, entendeu tudo, veio me explicando toda desenvolta.

Aí chegamos em casa. Estava trocando a roupa dela quando veio a epifania. Ela segurou meus braços, olhou fundo nos meus olhos, e falou sorrindo. Como criança consegue sorrir e falar ao mesmo tempo, eu não sei. Mas conseguem.

- Mamãe! A gente vai dançar juntas!

É verdade. O encerramento é todo mundo junto.

- Vamos, filha! Nós vamos dançar junto!

E ela saiu pulando, eufórica:

- Dedé, eu vou dançar ballet e a mamãe vai dançar sapateado, mas depois, no "ceamento", nós vamos dançar juntas!

Eu ouvi a tia lá na sala:

- Que legal, Cacá! Vai ficar muito lindo.

Que legal, Cacá. Nós vamos dançar juntas. Como você é linda.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre a outra Ana

Quando a Ana nasceu, a Ana minha e não a Ana em mim, eu achava um tanto de coisas que as pessoas acham hoje.

Eu achava que tinha que deixá-la chorar um pouco para não mimá-la. Eu achava que os médicos me ajudariam a cuidar da minha filha e do meu corpo. Eu achava que ela ia ter hora pra mamar e que mamaria até os seis meses, pra depois eu recuperar “minha vida”. Achava supernanny o máximo e esses livros que te dizem como criar seus filhos de um jeito fácil.

Ora, vejam só.
Como é que a vida é mesmo cheia de meandros e histórias...

Com a Ana eu descobri que ela precisava de mim, no momento que ela precisava de mim, e que às vezes isso não era de 3 em 3 horas. E que, muitas vezes, mamar não era “mamar”. E mamou pelo tempo que quis, como o Lucas vai mamar, e sei que vou sentir saudades desse tempo em que eu sou alimento. Que privilégio louco, ser alimento. Quantos sentidos em ser mãe.

Descobri que os médicos sabiam nada ou muito menos do que eu quando se tratava da minha cria. Lembro de uma vez em que tudo que a Ana tinha era intestino preso, e lembro da cara de bosta que o médico fez quando eu disse que não deixaria ele medicá-la para qualquer outra coisa que fosse, porque ele estava errado e não estava me ouvindo – não era garganta, não era enjoo, não era virose, era o intestino! Saímos do consultório meio perdidos. Em casa, a tia-avó deu uma bacia de manga para ela comer. O intestino soltou com violência, e a Ana sarou num prazo de três horas.

Descobri que chorar só serve pra isso: chorar. Que conhecer o seu filho e os motivos do choro e ensiná-lo também a conhecer-se é muito mais útil, reduz muito mais o chororô e cria um ser humano mais feliz e mais acolhido. O mundo vai deixá-la chorar num canto, sem consolo. Eu não vou.

Entendi que todas as fórmulas prontas são falhas, porque não existem fórmulas prontas. Em tratamento de água, você capta a água todos os dias do mesmo rio, mas o rio é cada dia um rio diferente. Às vezes a água está mais cristalina, às vezes mais barrenta, cada momento é um momento e não existe uma quantidade padrão de cloro a ser adicionada – você precisa conhecer a água, olhar a água, entende-la, para então dosar o cloro e tratá-la. Isso minha profissão me ensinou, e se posso ver isso aqui, como não ver isso nos nossos filhos? Eles são únicos e a cada dia diferentes, e vão desmistificar e arrasar toda fórmula pronta que eu possa tentar forçar neles como um molde. Eles não cabem em moldes, eles são mais.

No fim das contas, quando nos vejo meio índios – meus filhos andando descalços, pendurados no meu peito, comendo frutas com as mãos e roubando tomates antes de eu cortá-los para o molho (e não pense que é só a de 4 anos que está fazendo isso... ¬¬), eu entendo que fiz uma opção por não criá-los do jeito mais fácil. Eu fiz a opção por criá-los do meu jeito.

E quando alguém me diz, contando uma vantagem louca, “na minha casa hora de criança dormir é oito horas, e não tem conversa!”, uma partezinha de mim fica triste. Porque na casa dele não tem conversa... Na minha casa tem conversa, sim, mesmo que eu tenha estipulado horário para as crianças dormirem. Sempre vai ter conversa. E quando alguém me diz, “eu apanhei e tô aqui, vivinho da Silva, nem virei marginal!”, eu penso que quero a Ana e Lucas estejam muito mais do que vivos, quero que estejam bem, e que, além de não querê-los à margem, eu os quero no centro, protagonistas de suas próprias histórias. Essas justificativas são tão injustificáveis...

A cada dia eu me questiono sobre como estou criando meus filhos. A cada dia eu sento e peso. A cada dia eu rememoro os meus momentos de destempero, de estresse, de cansaço – e tento desmistificá-los, dobrá-los, tento encontrar novos caminhos para o novo dia que será amanhã (e será).


Não me acho nada. Sou cruelmente ciente das minhas limitações, da minha incapacidade como mãe, como esposa, amiga, profissional, como ser humano. Então isso não é receita de nada, nem exemplo de como ser mãe – aliás, Deus me livre ser exemplo, já sinto o peso nas costas de ser exemplo para as minhas crianças, haja responsabilidade... Isso é só um desabafo de como eu me descubro, às vezes, na surdina, quase clandestina, feliz por ter deixado vir à tona essa pessoa que eu já era e não sabia. Essa pessoa que não liga para o que vão dizer se ela assumir que na casa dela as crianças podem falar palavrão, desde que saibam o que estão falando. É tão bom poder não ligar. Tão bom saber que o mundo ainda vai girar, mesmo eu sendo errada e incompleta. E desde que meu mundo passou a girar com meus filhos nele, eu sou capaz de ir dormir sem escovar os dentes, mas não sou capaz de me deitar sem abraçá-los forte e beijá-los e ensebá-los no meu aconchego, sem sussurrar no meu íntimo, obrigada.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Agora eu era o herói

Eu sempre soube ser confusa, não é novidade pra mim, mas nos últimos meses tenho batido o recorde.

Quero brincar com a Clara, mas estou sem paciência.
Quero ler para a Clara, mas estou dando de mamar para o Lucas.
Quero brincar com o Lucas, mas preciso fazer a comida.
Quero ficar com o pai deles, mas estou tão cansada.

Assim vão passando meus dias, eu tentando me equilibrar na corda bamba que eu mesma me impus.

Vez por outra me assombra aquela vozinha:
Eu vou deixar o trabalho.
Eu vou desescolarizar Ana Clara e o Lucas nunca será escolarizado.
Eu vou ser mãe deles.

Mas eu não sou mãe deles?
Em mim, uma outra vozinha fica se perguntando.
Mas eu sou uma mãe tão ruim assim, que não dê nem pra recuperar?
Será que eu não consigo dar um baile nos hormônios que me deixam chata e brava e impaciente?
Será que eu não consigo usar a escola contra ela mesma, mostrando a Clara como certas coisas são só bobagem?
Será que a gente não consegue fazer a comida brincando?

Um dia após o outro, eu vou errando.
Um dia após o outro, tentando consertar.

Lucas está aprendendo a dar tchau.

O tempo nos traz tanto. E perdemos o tempo.