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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Quase no Ano Novo

Lucas ganhou um celularzinho de brinquedo, que a mamãe comprou e custou, sei lá, oito reais. Talvez nem isso. Comprei no calçadão da cidade. Não, certamente não é BPA free, deve ter lá seus metais naquela tinta, mas eu já tinha batido muita perna em loja boa sem achar o que eu queria dar pra ele. Dane-se, vou levar esse mesmo, depois compro outro.

Daí ontem tá ele com o celular, que tem um botão com uma máquina fotográfica nele, mirando aqui e acolá.

- Filho, que cê tá fazendo?

Olha pra mim e ri.

Depois coloca de novo na frente do rosto, apontado pra mim, pra Clara, pra TV. Ele está tirando foto!

- Tira uma foto nossa, Lucão!

E todo torto, carregando o celular pra cima e pra baixo, ainda afirmando os passinhos, ele sai com a peça na frente do rosto, como quem procura o foco, fazendo as nossas fotos imaginárias. De vez em quando tira o celular do rosto, olha pra mim e sorri matreiro, sabendo que está fazendo sucesso. Ah, ruivinho!

Quase no Ano Novo, ele com um aninho. E está aberta a adorável temporada de gracinhas. <3

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Indagações

O post de hoje não é diretamente sobre as crianças, mas só acontece por causa delas, não tenho dúvidas.

Este ano de 2015 eu me questionei inúmeras vezes, como nos demais anos. Mas, este ano, muito ciente de mim, das minhas crenças, das escolhas que fiz para minha família, questionei pra caramba o mundo e os outros, também.

Quando eu não sabia que era feminista, por exemplo, era muito tranquilo assistir às pessoas postando coisas machistas no facebook, whatsapp. Piada machista. Vídeo machista. Me incomodava, mas eu achava que era assim mesmo - a gente se incomoda, vida que segue. Agora, me vejo indignada. Por que uma MULHER posta imagens machistas? Que só contribuem para fomentar o nosso universo machista? Por quê? Por que as pessoas acham que "ah, no meu tempo me chamavam de gordo, de preto, de feio, hoje em dia tudo é bullying!". Verdade. No meu tempo me chamavam, mesmo, de várias coisas. E era uma bosta. E era BULLYING. E me fez sentir mal, várias vezes. As pessoas respondem de maneiras diferentes a um mesmo estímulo - e se ser zoado na infância te fez mais forte, olha, que bom pra você. No meu caso, me fez mais introspectiva, mais encabulada, mais ressabiada e tantas outras coisas longe de positivas. Então eu me preocupo. Se eu for ofender alguém, se for alimentar um estigma, se for reforçar um rótulo, eu tento engolir a piada. Às vezes escapa, mas eu tento. Porque não é piada, com o tempo a gente percebe.

Quando eu não me interessava por política e achava que isso era uma coisa para ladrões, era muito mais fácil ficar alheia a tudo. Eu podia conversar com pessoas extremistas e conservadoras ou com anarquistas, pra mim dava tudo na mesma. Até que eu comecei a olhar o ser humano. A pensar no ser humano. Daí ficou difícil ter várias conversas. Daí ficou difícil engolir até os jargões do tipo "direitos humanos para humanos direitos". Opa. Quem foi que um dia achou certo que cercear direitos, para qualquer grupo que seja, estava ok? Quem nos faz mais corretos que o correto? Como julgar alguém se não calçamos seus sapatos? Não consigo entender. Acho que é muito simples: se você está no grupo que quer cercear direitos, limitar, tolher, coibir... você é o escroto. Desculpe.

Quando eu não tinha consciência de que era anti-consumismo e não apenas "sem vaidades", eu não me incomodava com as datas festivas, a avalanche de compras que a precede e o significa distorcido que se constrói aos poucos. Mas hoje eu me vejo pensando, pra cada coisa: preciso disso? O que vai gerar menos lixo - levar 5 garrafas de 600ml ou 12 garrafinhas de 355ml? E reciclar. E reaproveitar. E ver minha filha dizendo "vamos fazer uma casa da Barbie?", e não "comprar". Vendo o Lucas brincar com coisas excelentes que foram dela. Separando coisas que foram de ambos e já não tem mais uso para eles. Recriar o ciclo. Sair fora do círculo do consumo. Eu me sinto mais leve, ainda que vendo os valores das outras pessoas mais distantes dos meus. Talvez consigamos viver na diferença - ou, sendo otimista, quem sabe um dia todos nós entendamos de uma vez que ter, por ter, não serve de grande coisa.

Enfim, quando eu achava que gostava mais de bicho que de gente, viver era mais fácil. Mas eu gosto de gente - não que não goste de bicho. Reduzi drasticamente o uso de produtos testados em animais. Se é uma coisa da qual eu não preciso diretamente (maquiagem, por exemplo), arrisco dizer que reduzi totalmente. Não compro de marcas que testam em animais - mesmo que testem só na China. Mas gosto de gente. Daí ficou dramático fazer compras. Tive que tirar do meu roteiro tantas marcas que  usam trabalho escravo ou infantil... E às vezes, sem saber ou sem querer, acabo ligada a elas - e lembra que eu nem consumista sou, então o negócio é feio mesmo e está pra todo canto. Mas eu vigio. Eu percebo. Eu me importo.

Isso resume tudo.

Meus filhos nasceram, eu envelheci um tantinho, amadureci, e descobri: eu me importo.

Me importo se vai ter mundo.
Me importo com as pessoas que caminham sobre ele.
Me importo com os valores que elas tem.

E penso:
É preciso encher meus dias dos verbos tolerar, acolher, reconhecer. E tolher o verbo tolher. Coibir o coibir. Eliminar o julgar. E caminhar, sempre. Sem nunca esquecer: é preciso ser TODO, sem nunca esquecer que sempre somos, apenas, PARTE.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre olhar e ver

Saí de férias, o blog ficou.

O blog ficou. Tudo ficou. Eu saí de férias e curti meus filhos.

Sim, arrumei coisas para o aniversário. Fomos a médicos. Fiz compras. Mas, no geral, fiquei com meus filhos. Olhei os meus filhos e os vi.

Tomamos banho juntos, sentamos no chão e brincamos. Começamos uma mobília genérica de boneca. Fizemos cócegas. Vi o Lucas começar a andar, estava lá para filmar, para comemorar. Vi a Clara se preparar para sua primeira apresentação de ballet.

Na hora de voltar, meu coração estava acelerado. Voltar ao trabalho. É importante, o trabalho também faz parte de mim, também, mas foi difícil.

No trabalho, com o coração na poltrona da boneca da Ana Clara. No brinquedinho que se aperta, sai correndo - o Lucas atrás. O pensamento no Lucas e na Ana Clara. E hoje é só quarta-feira...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Sobre diagnósticos

Duas semanas deles doentinhos. Lucas com conjuntivite, ouvido cheio de secreção, dias e dias de antibiótico. Ainda no processo dele sarar, Clara com febrinha. A mãe enlouquece. Comecei com uma dor de cabeça e, no ápice da preocupação, arranjei um torcicolo.
Ela, já melhor, graças a Deus, me pergunta:
- É aqui o seu machucado? - apontando o "Salompas" que eu colei no desespero.
- É.
- Tá sangrando?
- Não, não é de sangrar, boneca. É lá dentro.
- Humm... Sabe, mamãe, acho que o que você tem é coração partido. Por isso que dói lá dentro.
Pra quem diz vez em quando que vai ser médica, o diagnóstico da Clarinha foi certeiro...

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Em série

Conjuntivite. A Clara, o Lucas, eu. Atestado. Ficar em casa. Explicar pro empregador, doença infecto contagiosa. Nem preciso ficar em casa, tô bem. Pode passar pra Deus e o mundo, ok. Vou ficar em casa.

Arruma armários. Cuida das crianças. Leva na escola, busca na escola, dá de mamar. Como é bom ficar em casa.

Birras. Brigas. Contornos. Ballet. Ensaio. Por na cama, por no berço, antes vamos tomar banho. Como é trabalhoso, não trabalhar, mas que trabalho bom.

Sarando, já. Amanhã volto a trabalhar.

- Ah, mamãe. Mas eu não quero que você trabalhe!...

A mamãe quer trabalhar e quer ficar com vocês, Claraboia. A mamãe quer tudo. A mamãe quer ser profissional, mas acima de tudo quer ser a mamãe de vocês. Quer fazer coisas de mamãe, também.

E daí, eu que no começo da semana estava meio preocupada com o que esses quatro dias teriam de impacto na minha vida como profissional, percebi o impacto que esses rápidos quatro dias tiveram na minha vida de mãe.

De ficar e cuidar. E abraçar e beijar. E encher de carinhos. E estar presente.

Como é bom ser mãe de vocês!...



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O que realmente vale a pena

Na correria do aniversário, no meio dos faz isso e aquilo, dobra e desdobra, fomos tomar banho. Tomar banho, pra você colocar a roupa de princesa - logo todo mundo vai chegar!...

- Você está feliz, filha?

Ela agarrou forte a minha perna, deu um desses sorrisos que a gente enxerga até quando a pessoa está de costas.

- Estou! Obrigada, mamãe! Pelo meu aniversário...

Eu agradeci a ela, é ela que motiva tudo isso.

E pensei... Não tem correria, desdobramento, planejamento que este obrigada não pague.

Renovou minhas energias para começar o aniversário do Lucão. =)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Expectativas

- É para o meu 'versário?

É para o seu aniversário, Cacá. Com essa pergunta, ela me desmonta inteira. Porque então eu olho pra ela e penso: é aniversário dela. Da minha filha. Minha Ana Clara. Quatro anos. E ela tem três. Só três. E ao mesmo tempo, tudo isso: quase quatro anos. É tão confuso. Tão pequenina e tão grandona.

Hoje seria aniversário da minha mãe. Um dia em que eu me lembro dela com saudade, e ao mesmo tempo estou com a cabeça em outro lugar - um lugar de alegria em que a minha filha faz aniversário.
Deus me abençoou a mandando nesse dia, o Dia das Bruxas, que já tinha tudo pra ser um dia legal e ganhou uma estrela diferente.

- É, filha. Você gostou?

- Gostei, mas gostei mais de você!

Eu também, Clara. De tudo que estamos fazendo para o seu aniversário, eu gosto mais de você.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Hoje pode deixar que eu conto

 - Era uma vez uma princesa muuuuito linda, e ela queria ir ao baile. Mas a madrasta dela falou assim (fecha o cenho e estica o dedinho em reprovação) "não vai ao baile! vai limpar a casa". Daí ela chorou, chorou. Apareceu, então, (pausa dramática) uma fada madrinha! Que fez pra ela vestido, carruagem, montes de coisas. E ela foi. Chegou lá, o príncipe só quis dançar com ela! (fecha o cenho, de novo) Não quis saber de madrasta, de irmã, de nada! Só com ela. E os dois se casaram e foram felizes para sempre. E fim!

E fez falta o sapato? Fez falta nada!

=)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre gratidão, empoderamento infantil, fé e outras histórias, num textinho muito curto

Na cama, chamegando antes de dormir, olhei pra ela e para o menino no meu peito e pensei: como a vida mudou depois deles, por eles. E para eles.

Estiquei minha mão e fiz um carinho nos cachinhos dourados da Ana Clara:

- Filha, obrigada. Obrigada de ter vindo para a minha barriga.

Tantas vezes minha mãe me agradeceu por isso, eu nunca entendi. Hoje eu entendo, mãe. Mas também não soube responder, numa vida inteira, tão bem quanto a minha pequena de quase 4 anos respondeu:

- De nada, mamãe. Sabe, foi Papai do Céu que me escolheu.

Deu aqueles nós na garganta que são apertados que só, mas que também são gostosos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Conquistas e Inseguranças

Ontem Lucas andou 40cm.

Foi só da poltrona até o sofá, terminou com ele se jogando quando chegou, foi no susto e sem pensar, mas andou.

Eu fiquei atônita.

Perdida entre o "ele andou!" e o "foram só 40cm, e meio bambos". No fundo, ciente de que ele está quase lá.

E é meio louco, isso.

Ver nossos filhos cada vez conquistando mais habilidades. Ficando cada vez mais aptos para enfrentar o mundo. E sentir, lá no fundo, que eles precisam um pouquinho menos de nós. Cada vez um pouquinho menos.

E torcendo para participar de cada etapa. De cada novidade.

Eu peço a Deus que dê a eles toda a saúde do mundo. E que me dê saúde, também, para eu estar ali, presente, apoiando cada primeiro passo ou os que vierem em sequência, vendo minhas maiores preciosidades construindo suas histórias...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Te cuida, México!

Nunca houve dúvidas do talento nato para o drama. Já começou na maternidade. Enquanto pesavam, mediam, a enfermeira ao meu lado me disse, no meio do choro que vinha do fundo do corredor:

- Ó, tá vendo o choro? Sentida...

Eu ri. Óbvio que ela estava só puxando assunto e tal. Clara tinha acabado de nascer, como podia ser "sentida"?

Está aí, Ana Clara, aos 4 anos. Sentida.

Ontem, sentada na mesa depois de jantar, pediu pra tia não ir embora, porque eu ia ao sapateado.

- Mas eu tenho que ir, Cacá...
- Você vai embora?
- Vou, preciso de ir.
- E a mamãe vai ao sapateado?

Respondi, lavando a louça:
- Eu vou!

E ela, num muxoxo:
- Já sei. Vou ficar sozinha...

Não deixo a Clara sozinha nem pra ir tomar banho no banheiro dos fundos da casa, diga-se passagem. Ela vai comigo, ela e o Lucas. Mamãe é neurótica, thank you very much, mas não ficam, mesmo. Então da onde veio esse comentário? Com o dramático "já sei", ainda, com coisa que a pobre vítima passasse pelo abandono a torto e direito.


E o Lucas.

O Lucas mal tinha saído da minha barriga, nem todo pra fora estava, deu um resmungo. Depois, o choro alarmado, reclamado. Chegou perto de mim e parou de chorar, mas vez por outra ainda vinha o grito inconformado de "eu não acredito que vocês me tiraram lá de dentro!".

Mas não é o choro "pobre de mim". É o choro "quero ver o seu gerente! eu vou ao procon".


Eles vieram protagonistas, ambos, cheios de anseios para escrever suas histórias. Histórias de personalidade, coragem, dramas e bravezas, mas também alegrias e bondades. Conhecê-los, este é meu maior desejo e meu melhor prazer.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Sempre presente

Clara e Lucas ganharam presentes de Dia das Crianças de gente muito querida, e eu fiquei exultante ao vê-los exultantes. Adoraram. Ana Clara se mostrou a médica, motorista de carruagem, dona de Polly Motoqueira e fotógrafa da Elsa (câmera do Frozen...rs) mais feliz que eu poderia imaginar. E o Lucas se diverte com carrinhos, boizinhos, bola que toca musiquinha.

Amei que meus filhos sejam queridos e tenham ganhado presentes lindos, mas eu me sinto meio desafiada de ensinar a eles uma coisa em que acredito - que é preciso presença, especialmente a dos pais. Então o dia foi todo pensado pra eles - mais pra Ana, confesso, que é a criança que já se liga mais em datas comemorativas, mas também pro Lucas -, e envolveu comidas que eles gostem, brincadeiras, bagunças, fazer brinquedos, fazer uma guloseima gostosa... essas coisas.

No fim do dia, chamei a Clara para o meu colo.

- Como foi seu Dia das Crianças?
- Legal! - não aquele "legal" que a gente fala no automático, aquele "legal" cantado que só as crianças sabem dizer e enchem o coração da gente de alegria.
- Que bacana, filha! E o que você mais gostou?
- De fazer bolinho!

Fizemos "cupcakes" - mas eu ensino a Ana que cupcakes são bolinhos, aqui no lado de baixo do Equador. De cacau. Ela ajudou a fazer e a comer...rs.

- Eu também gostei muito de fazer os bolinhos! E os presentes que os tios e padrinhos te deram?
- Eu gostei muito! E do seu...
- Ah, o ursinho que nós fizemos junto?
- Não... a luva de princesa.

Vi no youtube um tutorial de crianças fazendo luvas. Consiste em pegar uma meia, cortar do jeito certo a pontinha do pé e você tem uma luva daquelas que prende entre os dedos, sabe? E ainda dá pra criança mexer a mão com bastante liberdade. Fomos almoçar na Dedé e eu perguntei se ela não tinha um par de meias finas, brancas, para testarmos. E ela tinha. E no fim do dia, Aninha estava me agradecendo pelo "presente" que consistia numa meia limpa, mas usada, que levei mais ou menos um minuto pra cortar e colocar nos braços dela.

Nessa minha onda de vencer o espírito de manada, como eu chamo, resolvi valorizar com minha filha as coisas importantes.

Não é importante que ela tenha o vestido LICENCIADO da princesa. Ou a luva IGUAL a da princesa. Ou que os presentes tenham ETIQUETAS. O importante são as pessoas. As relações. Sentir-se bem. Respeitar-se e aos outros. Respeitar a nossa morada, no sentido mais local e no mais universal. E meias são luvas. E tecidos são vestidos completos. E a boneca que vai no dia do brinquedo da escola é a mais picareta que pode haver, mas que importa, se a Ana gosta. O mundo consumista nos aperta, tem horas. O mundo que esquece o que vale a pena. Mas a gente vai se virando, se desvirando, e nunca esquece!...


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cantorias

Assistindo a apresentação de ballet da menininha por quem somos todos apaixonados. Ana Clara de olhos fixos no palco. Batia palma, alguns "uhull!", algumas perguntas. E o Lucas...cantando.

Cantando, modo de dizer. Gritando. Mas a intenção era cantar.

Intervalos para mastigação enquanto eu dava o lanchinho da tarde, com direito a "huuummm" sonoros.

Volta pra cantoria. Durou até o fim do espetáculo.

Ontem, enquanto eu fazia a comida e os dois brincavam na sala, ouvi uns acordes. Achei o neném em pé, rindo a valer enquanto batia a mãozinha nas cordas do violão do pai.

Na minha casa, tem música.

Na minha casa, tem vida.

Na minha casa, tem luz - de Clara e Lucas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Zeca

Mostrando as pelúcias que apareceram no comercial de TV na casa da tia:

- Mamãe, a gente pode fazer um ursinho desses?

- Oi, Ana?

- Fazer um ursinho desses. Ou um canguru. Um bichinho, desses.

Fazer.
Não "comprar". Fazer.


..."A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas
E assumir os erros que lá vem
Se a alma finca pé os medos somem
Menino nunca deixe que te domem"...


Atualizando projeto de Dia das Crianças. Os panos de prato pintados vão esperar um pouquinho, tenho um ursinho pra fazer.

Os olhos e as fotografias

Fomos ver a roupa do ballet, ontem. Roupa maneira de dizer: o figurino.

A coisa toda já começou agitada, uma vez que a mãe da criança esqueceu da prova. Ok. Liga a professora: "tudo bem? Por acaso você esqueceu o teste da roupa da Aninha...?".

Esqueci. Mea culpa. Fomos para o ballet.

A Aninha, meu doce de abóbora com coco, quando eu pedi desculpas por ter esquecido:

- Tudo bem, mamãe. Eu também esqueci. Ainda bem que a Tia Dani ligou!

Tentei explicar a ela que, aos (quase) 4 anos, é mamãe que tem que lembrar. O senso de responsabilidade da Ana é muito precoce, e não adiantou muito dizer isso.

Chegamos lá com todo mundo já provado. É a nossa vez. E então a professora mostrou a roupa.

Eu acho que nunca vou esquecer essa coisa tão pequena e tão grande, "a primeira prova da roupa do ballet". Clara ficou esse misto de surpresa e felicidade, empolgação, ansiedade, tudo junto. Ficou olhando a roupa e sorrindo, com os lábios e os olhos, as mãozinhas tocando tão devagar no tecido como coisa muito preciosa que a gente tem até receio de encostar.

E aí vieram as perguntas:

- Gostou, Aninha?

- Que lindo, né, Aninha?

E ela só balança a cabeça, os olhos pregados no vestido. E depois no espelho, o vestido já no corpo dela.

- Faz assim, pra você ver a sainha pulando!

E a Ana faz assim pra sainha pular. A mãe derretendo aos pouquinhos - e nem era do calor.

Fico sempre dividida quando acontecem essas coisas. Queria ter uma foto do olhar da Ana ao ver o seu vestido. Mas será que eu queria ter uma foto do olhar da Ana ao ver o seu vestido? Talvez essa seja a lembrança mais completa - e a mais doce. A naturalidade de lembrar, permeada por todas as nossas sensações naquele momento. A sensação de ver minha filha mais próximo de algo que é importante pra ela, que ela quer muito, que foi a sua primeira decisão na vida - mamãe, quero fazer ballet... Ela quer ser bailarina - e eu o digo no sentindo mais despretensioso que pode haver: não no sentindo profissionalizante ou de grandes expectativas, mas no sentido do hoje. Hoje, a Ana quer ser bailarina. E ver o rosto dela, o brilho no olhar... Me valeu cada minuto dessa maratona de busca-veste-aprende a fazer coque.

- E o que você achou, filha?

- Lindo. Mas eu achava que aquela parte, assim, ia ser branca.

- É, mesmo? E agora, que você viu que é de outra cor?

- É mais bonito, ainda!


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Raízes

- Mamãe! A Mirna achou a saia...

A saia, que ela usou quando tinha um aninho. Estava fazendo um aninho. Do meu trabalho fico me perguntando: será possível que ainda entra nela, essa saia?

- Que legal, filha! Nós vamos lavar, pra ficar direitinho.

- No meu aniversário, eu não vou nem de Elsa e nem de Branca de Neve. Eu vou, sabe do quê?

- Do quê?

- De Princesa Peach! De colant, e da saia que a Mirna achou...! Vou ficar linda!

- Clara, você é MUITO linda!

- Se você quiser, pode ser o Mário...!

Ela diz que vai de Peach.
E eu posso ser o Mário! o/

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quem não tem cão

Fui comprar roupinhas que o Lucas precisava, achei justo comprar alguma bobeirinha pra ela.

- Mamãe, pode ser um relógio? Eu quero um relógio...

Considerando-se que o relógio em questão custava sete reais, achei a escolha excelente.

Indo pra casa perguntei as horas:

- Tem um cinco... e depois um dois. E outro dois.

- Cinco e vinte e dois, então.

Depois, à noite, foi mostrar o relógio pra tia:

- Ó, Dedé! O relógio que a gente comprou na tia Regina...!

- Que lindo! E que horas são?

Olha o relógio fixamente por alguns segundos. Depois, a resposta:

- É hora de jantar!

^^

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Quando a gente lembra

Estamos todos dormindo na cama compartilhada, que é na verdade uma somatória de colchões compartilhados - resultado da descupinização, que deixou os quartos com cheiro forte, da viagem do pai, das nossas carências, disso tudo.

Os dois estavam agitados, pulando, subindo, pegando, caindo.

Apaga a luz. Deita todo mundo. Shhhh... Todo mundo dormindo. Todo mundo quietinho pra dormir. Chega, gente. Vamos.

Ufa. O neném dormiu.

- Mamãe... posso dormir no seu colo?

Eu abracei e ela chorou de saudade do pai. Dormimos assim, agarradas.

No meio da noite acordei e vi que ela tinha se descoberto. No escuro, na incerteza das formas, eu peguei o edredon pequenino e joguei sobre ela - pelo menos esquenta um pouquinho.

O edredon, de berço, cobriu a Ana. E ele estava virado, sabe? A parte que deveria ficar na horizontal ficou na vertical, mas até que deu pra cobrir a Ana. E eu pensei, como ela é pequenina. Ela, a primogênita, a irmã mais velha, que me ajuda tanto, que vigia o irmão, de quem eu cobro às vezes demais... Ela é pequenina. E dormiu com saudades do pai...


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Como?

Como delegar a educação daqueles que são mais importantes para nós?

Como delegar os cuidados, a presença, a criação?

Como delegar a que terão acesso, como terão acesso?

Como aceitar a verticalização do saber, sabendo que o conhecimento é horizontal, totalmente horizontal?

Como aceitar que o olhar seja guiado, dirigido, orientado, quando tudo que precisamos é SER, ser para querer descobrir, para querer aprender?

Como?

Dormindo e acordando sob a questão. Fazer a vida dos meus filhos na escola ou fazer da VIDA sua escola.

Mas ah.... o sistema.

E aquilo em que eu acredito?

Que meus filhos não precisam se encaixar no mundo - precisam MUDAR o mundo. Precisam dobrá-lo e desdobrá-lo. Transformá-lo num mundo que os mereça.

Mas e se eles me cobrarem de simplesmente serem uma criança 'normal'?

Bom... Se eles me cobrarem de simplesmente serem uma criança 'normal'... meu trabalho foi mal feito.

Não soube ensinar a eles aquilo que mais acredito: que não há normalidade.

Que não há que se encaixar.

Que se você se preocupa com o que os outros pensam de você, é porque você pensa sobre os outros. E se você pensa sobre os outros... há mesmo muito com que se preocupar.

Dormindo e acordando na mesma questão.

Como?

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Elaborando

A justificativa padrão pra não carregar um monte de coisas é "eu só tenho duas mãos". Com coisa que fosse "só". Com coisa que a humanidade toda não tivesse "só" duas mãos pra resolver tudo.

Aí me sai com a nova, no dia que os amiguinhos estão em casa e ela me pede os materiais de desenho. Dei todos.

- Mas, mamãe, você me ajuda? É muita coisa pra eu carregar, e eu não sou o Hulk...

Ora, essa.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Dúvidas que a escola não sabe responder

Uma mistura de sentimentos toma conta de mim nas últimas semanas. Rafa indo viajar, as crianças ficaram doentinhas, tantas dúvidas, tantas coisas pra ajustar.

Fiquei olhando a Ana deitada tomando soro e pensei, chega. Não vou fazer isso com a minha filha. Não vou, mais. Ela vai ficar em casa, pelo tempo que for necessário, e se precisar explicar pra autoridade quando ela tiver mais que quatro anos, ok, eu explico. A gente conversa e se entende.

Estou aí num ritmo louco de pensar, repensar. De ser questionada. De explicar. Como seria bom ser uma pessoa decidida. Ter certeza das coisas que eu penso e bater o pé, mesmo que eu estivesse completamente errada. Infelizmente, eu pondero. O tempo todo, aliás. E isso dificulta tudo...

Estudo desescolarização em cada brecha que o dia me dá. Ontem cheguei em casa do trabalho e estávamos tocando piano. Ela tem aprendido algumas coisas, quase que incidentalmente. Daí de repente a brincadeira mudou e estávamos sendo lobos. E o Lucas estava mamando. E então começamos a conversar sobre a loba que amamentou duas crianças, contei a ela a lenda da fundação de Roma.

"Rômbulo e Remo?"

"Rô-mu-lo".

"Rômbulo?".

E ela me contou outras coisas. Fomos conversando. Eu olhava pra ela e pensava, como quero protegê-la... Como quero que ela seja feliz...

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

The "Pereba" Never Ends

Tava na alergia. Melhorou. Escola. Chegou esquisita. Febre. Vômito. Virose. Acorda boa. Passou. Ufa. Dor de cabeça. Dá pra ir passear. Quer ir embora. Vômito. Febre? Não. Descansa. Acorda mais ou menos. Comeu bem, tá passando. Dor de cabeça. Vômito. Tá sem febre. Vamos de novo lá. Faz exame. Põe no soro. Espera o exame. Nada. Virose. Ou alergia. Bora pra casa. Deu febre no Lucas. Espera que é a virose. Passou a febre. Voltou a febre. Tá baixinha. Agora passou de vez. Empipocou. Lá vamos nós, de novo. Virose. Mas, sabe? Pode ser também alergia.

Inspira. Expira. Inspira. Expira.

Graças a Deus lá fora brilha o sol, e as crianças amanheceram melhores.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Coisa de Hormônio

Ela chegou atacada, ontem. Já estava atacada desde cedo, coisa de criança que dormiu pouco. Foi pra escola e chorou pra ficar. Chorou na volta - porque esbarrei no pé dela, porque não dei corda por ela ter chorado depois que esbarrei no pé dela, porque sim, porque não, porque.

Normalmente, isso me deixaria possessa. Coisa de mãe louca, mesmo.

Mas ontem... Ontem a humanidade me atingiu, e eu simplesmente fiquei com dó.

Ainda assim, a eduquei - não fiquei cedendo pra cada draminha. Mas tive dó. Ela estava com sono. Cansada. Irritada sem saber porque. Perdendo a chance de brincar com a gente, no fim do dia, porque não estava legal. E aí... poxa, que pena. Tadinha. Eu só queria que ela melhorasse logo.

Dei comida.
Coloquei no quarto escuro.
Ela pediu um desenho.
Ok. Desde que não seja um desenho muito agitado.

E então, de repente, ela estava de pé me mostrando a coreografia do ballet. Me pedindo para mostrar pra ela como se dança no sapateado. Brincando de zumbi - "agora sou eu que vou morder o papai!", "fala assim, ó, 'braaaaaains". E rindo, alto.

Quando tive que sair, achei que seria outro chororô.

- Tchau, mamãe! Péra! Meu beijo!

Beijo estalado na bochecha e eu fechei a porta atrás de mim. Ouvia ela brincando com o pai e o irmão na sala de casa. Eu saí já com saudade, mas no meu rosto tinha um sorriso. Estava feliz, no fundo. Com ela, comigo. Sem briga. Anas 1, Hormônios 0. Vitória do time da casa.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O Sagitariano lá de Casa

Fiquei grávida, fui ver o signo das crianças. Eu não acredito em horóscopo, mas sei características predominantes dos signos, quais pertencem a que elemento, soube por muito tempo como fazer cálculo de ascendente e queria saber fazer o de lua. Ia ficar bonito. "Eu sou de gêmeos, com ascendente em gêmeos, e lua em". Não sei a lua, fica faltando, tá vendo? Pena.

A Clara não precisei nem de calendário pra saber. Escorpião, como a minha mãe. Fiquei preocupada com o lance dos decanatos - minha mãe tinha altas teorias sobre o primeiro, o segundo e o terceiro decanatos de escorpião. Mas aí, Clara ignorou esse negócio de "data prevista para o parto" e chegou antes, no mesmo decanato que minha mãe nasceu, no dia das bruxas pra ficar ainda mais doce essa data. Com coisa que outro decanato fosse ser o problema, mas entenda que foi, assim, como um bônus.

E aí, o Lucas. Sagitário. O signo do qual eu conheço menos representantes. Me sobrou ler as resenhas na internet: o signo da aventura. Opa. Bom, sabe. Horóscopo. Eu nem acredito mesmo nisso.

Aí estamos aí, com nove meses do neném!

O neném grande e com dobrinhas, risonho e bravo.

Que engatinha até o sofá, daí fica em pé, vira descostas para o sofá e tenta vir, ANDANDO, até a gente, no meio do tapete. Capote n° 01. Viva o tapete de EVA e a coordenação do neném, que caiu de joelhos.

Que fica em pé em paredes lisas, tenta andar apoiando, sai deslizando pela parede. Capote n° 02.  Viva as almofadas e o papai, que viu a arte e já posicionou todas estrategicamente, por ali.

Que não aguenta esperar a gente fazer os furos pra pendurar o varal novo e fica em pé no carrinho. Quem deixou o neném sem prender o cinto do carrinho? Bom. Agora o neném já está em pé. Sem capote, que é muito perigoso, e a mamãe tava do lado.

Aí ontem tava fazendo montinho na gente. Com nove meses.

Qualquer dia, mesmo não acreditando, vou escrever o horóscopo da mãe do bebê de sagitário. Se segura, mamãe!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Perguntas Quixotescas

Clara está na fase das perguntas e tem uma mãe que mais faz complicar do que responder. Vejamos como nos sairemos nisso.

O que me acontece - e apesar de não me achar certa em nada, também não penso que isso seja errado - é que prefiro deixar que ela tire suas próprias conclusões. Recuso a receita de bolo de verdades prontas que são passadas e repassadas às crianças. E isso dificulta.

- Mamãe, homem não usa batom, né?
- Por quê?
- Porque não usa. Né?
- Mas por que não usa?
- Não sei. Porque acho que é de menina.
- Quem te falou?
- Ninguém.

(mentira. É que se ela fala quem falou, eu falo "pode falar pra 'fulano', 'ciclano', etc, que não é assim, etc, etc, etc". Então anda escorregadia quando eu pergunto "quem?")

- Hum. Bom, homens podem usar batom, se quiserem. Eles também tem boca.
- Tem homem que usa batom?
- Tem. Eu tive um professor que usava batom preto!
- Preto?!
- É.
- O papai não gosta de batom.
- Não. Também tem menina que não gosta de batom. A mamãe não gosta de batom, mas a mamãe é menina. Certo?
- Certo.
- Então, funciona assim: todo mundo pode fazer suas escolhas e assumir as responsabilidades que vem com elas. Entendeu?
- Entendi.

(não é porque ela não sabe o que significa "responsabilidades" que ela não entendeu. Eu acho que entendeu, mesmo)

Teve o drama do ballet, também, recentemente, mas essa é outra história.

Desde que a Clara saiu da nossa bolha - leia-se, foi para a escola - vieram muitas coisas boas. E vieram essas coisas. Mas não tem nada. Enquanto o mundo vai construindo quimeras na cabecinha dela, eu vou ensinando minha pequena a enxergar bem os gigantes - são só moinhos de vento...

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O Dia em que a Mamífera Perdeu a Batalha do Mamá

Amamentar foi (e é), sem dúvida, a coisa mais louca que já me aconteceu depois de ter filhos. E me aconteceu em todos os níveis - físico, psicológico, emocional. Me descobri forte e frágil, extenuada e resistente, abri mão de algumas coisas em prol de tantas outras.

Aí essa noite eu precisei usar um creme dermatológico e fiquei com medo de amamentar.

Aí o Lucas tomou o leite artificial e veio para o meu peito só pra divertir, aconchegar e dormir.

E aí... ele dormiu.

O menino que eu digo pra todo mundo "desde que eu voltei a trabalhar ele não dorme, não sei porquê, só fica no meu cheiro, só quer dormir no peito, acho que sente minha falta". Este menino. Ele estava com fome.

Eu me senti derrotada. No meio da noite, em silêncio, no escuro, com ele no meu aconchego, dormindo sereno, chorei. Porque sei que tem todo o "ah, mas o leite humano é de digestão mais fácil, o leite artificial pesa no estômago e ele dorme, mesmo!". Mas antes de eu voltar a trabalhar, ele dormia. Como dormiu hoje, até as 05h da manhã. E era só o meu leite. Ou seja, voltar a trabalhar mexeu com a minha produção, eu sabia, e mexeu neste nível - de não deixar o meu filhote dormir direito.

Ele vai continuar tendo o meu peito. A mim. Sempre. Porque sei que se eu desistir e "vamos logo dar a mamadeira que daí todo mundo dorme!", minha produção vai diminuir ainda mais e logo nosso vínculo mamífero será transposto. Sei que vamos transpor isso, mas não vou facilitar. Vou é matusquelar e buscar e tentar fazer as nossas noites mais serenas, como for. Ele em primeiro lugar, sempre. Mas há que se ter um jeito.

Quem disse que os filhos nos ensinam em alguns meses tudo que mais de 20 anos de ensino formal não são capazes de ensinar? Pra você, minha reverência.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O Brilho dos Olhos

Eu confesso que ainda estava na dúvida. Mesmo depois de ter batido o pé que queria tanto. Esse negócio aí de dançar depois de velha... sei lá. É mico? É desejo? Bom. Vamos levando.

Aí ela saiu do ballet.

- Mamãe! A tia Dani mostrou a minha roupa! É assim, é assada, eu vou ser isso e aquilo, muito brilho! E tem o negócio pra segurar o outro negocinho, e preciso de arranjar um desses pra ensaiar, a tia Dani falou, e a roupa é linda, e eu vou dançar no palco, e eu vou ficar muito linda, e as meninas, e eu vou dançar bem bonito! Pra você e o papai e o Lucas... Espetáculo!

Empolgadíssima. Eu dei uma mudada na fala, pra não entregar o ouro pra quem vai assistir o espetáculo - o elemento surpresa!rs -, mas ela sabe tudo, entendeu tudo, veio me explicando toda desenvolta.

Aí chegamos em casa. Estava trocando a roupa dela quando veio a epifania. Ela segurou meus braços, olhou fundo nos meus olhos, e falou sorrindo. Como criança consegue sorrir e falar ao mesmo tempo, eu não sei. Mas conseguem.

- Mamãe! A gente vai dançar juntas!

É verdade. O encerramento é todo mundo junto.

- Vamos, filha! Nós vamos dançar junto!

E ela saiu pulando, eufórica:

- Dedé, eu vou dançar ballet e a mamãe vai dançar sapateado, mas depois, no "ceamento", nós vamos dançar juntas!

Eu ouvi a tia lá na sala:

- Que legal, Cacá! Vai ficar muito lindo.

Que legal, Cacá. Nós vamos dançar juntas. Como você é linda.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre a outra Ana

Quando a Ana nasceu, a Ana minha e não a Ana em mim, eu achava um tanto de coisas que as pessoas acham hoje.

Eu achava que tinha que deixá-la chorar um pouco para não mimá-la. Eu achava que os médicos me ajudariam a cuidar da minha filha e do meu corpo. Eu achava que ela ia ter hora pra mamar e que mamaria até os seis meses, pra depois eu recuperar “minha vida”. Achava supernanny o máximo e esses livros que te dizem como criar seus filhos de um jeito fácil.

Ora, vejam só.
Como é que a vida é mesmo cheia de meandros e histórias...

Com a Ana eu descobri que ela precisava de mim, no momento que ela precisava de mim, e que às vezes isso não era de 3 em 3 horas. E que, muitas vezes, mamar não era “mamar”. E mamou pelo tempo que quis, como o Lucas vai mamar, e sei que vou sentir saudades desse tempo em que eu sou alimento. Que privilégio louco, ser alimento. Quantos sentidos em ser mãe.

Descobri que os médicos sabiam nada ou muito menos do que eu quando se tratava da minha cria. Lembro de uma vez em que tudo que a Ana tinha era intestino preso, e lembro da cara de bosta que o médico fez quando eu disse que não deixaria ele medicá-la para qualquer outra coisa que fosse, porque ele estava errado e não estava me ouvindo – não era garganta, não era enjoo, não era virose, era o intestino! Saímos do consultório meio perdidos. Em casa, a tia-avó deu uma bacia de manga para ela comer. O intestino soltou com violência, e a Ana sarou num prazo de três horas.

Descobri que chorar só serve pra isso: chorar. Que conhecer o seu filho e os motivos do choro e ensiná-lo também a conhecer-se é muito mais útil, reduz muito mais o chororô e cria um ser humano mais feliz e mais acolhido. O mundo vai deixá-la chorar num canto, sem consolo. Eu não vou.

Entendi que todas as fórmulas prontas são falhas, porque não existem fórmulas prontas. Em tratamento de água, você capta a água todos os dias do mesmo rio, mas o rio é cada dia um rio diferente. Às vezes a água está mais cristalina, às vezes mais barrenta, cada momento é um momento e não existe uma quantidade padrão de cloro a ser adicionada – você precisa conhecer a água, olhar a água, entende-la, para então dosar o cloro e tratá-la. Isso minha profissão me ensinou, e se posso ver isso aqui, como não ver isso nos nossos filhos? Eles são únicos e a cada dia diferentes, e vão desmistificar e arrasar toda fórmula pronta que eu possa tentar forçar neles como um molde. Eles não cabem em moldes, eles são mais.

No fim das contas, quando nos vejo meio índios – meus filhos andando descalços, pendurados no meu peito, comendo frutas com as mãos e roubando tomates antes de eu cortá-los para o molho (e não pense que é só a de 4 anos que está fazendo isso... ¬¬), eu entendo que fiz uma opção por não criá-los do jeito mais fácil. Eu fiz a opção por criá-los do meu jeito.

E quando alguém me diz, contando uma vantagem louca, “na minha casa hora de criança dormir é oito horas, e não tem conversa!”, uma partezinha de mim fica triste. Porque na casa dele não tem conversa... Na minha casa tem conversa, sim, mesmo que eu tenha estipulado horário para as crianças dormirem. Sempre vai ter conversa. E quando alguém me diz, “eu apanhei e tô aqui, vivinho da Silva, nem virei marginal!”, eu penso que quero a Ana e Lucas estejam muito mais do que vivos, quero que estejam bem, e que, além de não querê-los à margem, eu os quero no centro, protagonistas de suas próprias histórias. Essas justificativas são tão injustificáveis...

A cada dia eu me questiono sobre como estou criando meus filhos. A cada dia eu sento e peso. A cada dia eu rememoro os meus momentos de destempero, de estresse, de cansaço – e tento desmistificá-los, dobrá-los, tento encontrar novos caminhos para o novo dia que será amanhã (e será).


Não me acho nada. Sou cruelmente ciente das minhas limitações, da minha incapacidade como mãe, como esposa, amiga, profissional, como ser humano. Então isso não é receita de nada, nem exemplo de como ser mãe – aliás, Deus me livre ser exemplo, já sinto o peso nas costas de ser exemplo para as minhas crianças, haja responsabilidade... Isso é só um desabafo de como eu me descubro, às vezes, na surdina, quase clandestina, feliz por ter deixado vir à tona essa pessoa que eu já era e não sabia. Essa pessoa que não liga para o que vão dizer se ela assumir que na casa dela as crianças podem falar palavrão, desde que saibam o que estão falando. É tão bom poder não ligar. Tão bom saber que o mundo ainda vai girar, mesmo eu sendo errada e incompleta. E desde que meu mundo passou a girar com meus filhos nele, eu sou capaz de ir dormir sem escovar os dentes, mas não sou capaz de me deitar sem abraçá-los forte e beijá-los e ensebá-los no meu aconchego, sem sussurrar no meu íntimo, obrigada.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Agora eu era o herói

Eu sempre soube ser confusa, não é novidade pra mim, mas nos últimos meses tenho batido o recorde.

Quero brincar com a Clara, mas estou sem paciência.
Quero ler para a Clara, mas estou dando de mamar para o Lucas.
Quero brincar com o Lucas, mas preciso fazer a comida.
Quero ficar com o pai deles, mas estou tão cansada.

Assim vão passando meus dias, eu tentando me equilibrar na corda bamba que eu mesma me impus.

Vez por outra me assombra aquela vozinha:
Eu vou deixar o trabalho.
Eu vou desescolarizar Ana Clara e o Lucas nunca será escolarizado.
Eu vou ser mãe deles.

Mas eu não sou mãe deles?
Em mim, uma outra vozinha fica se perguntando.
Mas eu sou uma mãe tão ruim assim, que não dê nem pra recuperar?
Será que eu não consigo dar um baile nos hormônios que me deixam chata e brava e impaciente?
Será que eu não consigo usar a escola contra ela mesma, mostrando a Clara como certas coisas são só bobagem?
Será que a gente não consegue fazer a comida brincando?

Um dia após o outro, eu vou errando.
Um dia após o outro, tentando consertar.

Lucas está aprendendo a dar tchau.

O tempo nos traz tanto. E perdemos o tempo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cem vezes

Cem postagens neste blog.

Cem vezes eu parei para falar dos meus filhos aqui. Umas 100 mil vezes na vida. Mentira, parei mais de 100 mil vezes.

Cem histórias, desabafos. Achei o número bonito.

E pensei:

Cem vezes eu os teria: meus filhos. Cem vezes maneira de dizer: eu os teria hoje, ontem, amanhã e sempre, incondicionalmente.

Cem vezes eu faria essa escolha, embarcaria nessa viagem - que não tem destino certo, então aproveito a jornada. Intensamente. Loucamente. Aproveitando os momentos espremidos entre a saída do ballet e a janta, entre o fim da sexta e o começo da segunda.

Cem vezes por dia deve ser o número aproximado, se não subestimado, de vezes em que eu digo seus nomes, e os imagino, ou olho pra eles e penso: que prazer, Lucas e Clara. Como são bem-vindos, Lucas e Clara. Como eu os amo.

Vocês me deram novo norte - não porque eu precisava dele, mas porque o escolhi. E me deram cem ou mais novas oportunidades de refletir sobre a vida, corrigir, repensar.

Cem vezes, obrigada.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Rotina

Ligo pra casa todos os dias buscando notícias: como é, como estão, acordaram, comeram, tomaram banho? etc.

Na hora do almoço, Rafael me ligou. Conversamos, conversamos, ele resolveu chamar Ana Clara.

- Oi, mamãe!
- Oi, filha! Tudo bem?
- Tudo bem! Tô com saudade...!
- Eu também estou com saudade... O que você e o Lucas estão fazendo?
- O Lucas tava chorando, mas aí ele conseguiu dormir e parou, mas ele tomou o mamá antes, aí ele dormiu. Aí ele acordou, e tomou água e ele comeu o papázinho dele, tudo, já, também. Agora ele tá aqui, brincando.

Escutava os gritinhos dele, ao lado dela.

Ontem, no carro, voltando pra casa depois de um começo de semana cheio de boas vibrações, ela me disse:

- Mamãe, conversa com o papai pra você não ir trabalhar amanhã? Nunca mais.
- Mas, filha, isso não depende do papai...
- Mas conversa com ele... Pra você ficar em casa, que eu sinto muita saudade, não quero que você trabalhe, mais. Só o papai trabalha, ele ganha um pouquinho de dinheiro e só. Pronto.

Doeu, sabe?



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Pingos e letras

Passei toda a semana passada e o final de semana tomando todo cuidado do mundo para não dizer as palavras "segunda-feira Clara não vai à escola, porque vai ter aniversário". Eu não quero que ela coma as tranqueiras, ela nem pode comer as tranqueiras por conta das alergias, então decidi que ela vai ficar em casa para evitar vontades da parte dela e dózinhos de partes alheias (que culminem em "só um pedacinho, pra ela não ficar se sentindo de lado" e uma descarga de alergia, depois).

A professora me avisou sem as palavras "aniversário". "Bolo". "Salgado". Nada disso. Entramos num acordo de entendimento silencioso.

Em casa, eu disse "Clara não vai à aula na segunda". Depois que ela saiu da cozinha, balbuciei sem som "a-ni-ver-sá-ri-o". Sem som, eu juro.

Aí no meio da manhã liguei para casa, precisava avisar a Mirna. Tinha pedido pra Clara avisar a Mirna, também, mas vamos garantir.

- Mirna, hoje Ana Clara não vai à aula, viu?

- Ah, eu sei. Ela pulou da cama e me disse, "hoje não vou à escola, minha mãe falou, porque tem aniversário".

Mas eu não falei isso...oras, bolas.

Nada como ser observadora.

Mais uma vez, preciso ter olho no lance.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Sobre o darwinismo

Quando cheguei na sala e achei Clara em pé, sozinha, apoiando no sofá, pela primeira vez, tirei uma foto. Essa foto tem data de 25 de agosto de 2012, Clara estava prestes a fazer 10 meses, no dia 31 daquele mês.

Esse final de semana, mais precisamente no dia 15 de agosto, tirei a primeira foto do Lucas em pé, sozinho, apoiando no sofá. Ele fez 08 meses dia 02 deste mês.

Onde ele vai com tanta pressa, não sei.

Se a Clara tem um papel fundamental nisso - de encorajá-lo, de incitá-lo, de convidá-lo a andar atrás dela pra desvendar o mundo -, não tenho dúvidas.

Se isso é questão de adaptação ao meio... Porque a Clara tinha todos os colos por todo o tempo. Porque o Lucas tem que esperar se estamos no meio de alguma outra coisa, e, apesar de passar no preferencial, nem sempre é o primeiro da fila. Porque a mamãe tem que revezar o colo, já que a Cacá também é pequena. Porque não estamos só olhando ele crescer - estamos olhando ele crescer, e olhando a Clara crescer, e arrumando as coisas porque está quase na hora do ballet, e vamos ver se a lancheira está pronta pra escola, e uniforme, e levar o neném pra vacinar, e cozinhar os legumes se não vai faltar papinha... Aí já prefiro não pensar, porque rola uma culpazinha, e ficar em pé sozinho é coisa boa, e não motivo pra gente ficar se cobrando, vai. Só por hoje. =)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Capitu

A gente vai vendo que o bichinho é cheio de rique-foques e de lero-leros. Que gasta um bom português e é terrível na argumentação. Ainda assim, a gente comete tropeços.

Fazendo um bolinho para a janta.

- Mamãe, posso por mais farinha?
- Não, filha, já tem o suficiente.
- E outro ovo?
- Não, Ana, é um ovo só.
- E esse? (mostra o óleo).
- Também não. Esse é só um fiozinho. Já coloquei.
- ...
- ...
- Então posso amassar?
- Não, Clara, ainda não está no ponto que a mamãe pode deixar você amassar. Daqui a pouco.
- Agora?
- Não.
- Você vai por água? Posso por a água?
- Não, a água é só na hora de enrolar.
- Então posso por mais farinha?

Respirei, contei, juro, mas não deu:
- Ana, filha! Não! Mamãe já falou algumas vezes que não. Vamos adotar assim, resposta padrão, por enquanto: não pode. Combinado? A resposta é não, sempre não, por um tempo.

- ...Mamãe...
- ...eu...
- ...Você já colocou toda a farinha de que precisava?

Mas. Olha isso.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Devia

"Paçoca" devia mesmo chamar "paraçopa", como a Aninha diz, e quando a gente fosse falar no diminutivo ficava "paraçopinha".

E "bisnaguinha" devia mesmo ser "bisganinha".

E "purpurina" devia ser "fuufulina".

Devia.



Adendo em 13/08:

E água "flutuada" é muito mais legal que água filtrada. Mas muito.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O que é isso?

- É shiitake.

- Shiitake? O que é shiitake?

- É de comer.

- Mas o que é? É carne?

- Não, é vegetal. É, assim, da natureza. Nasce da terra.

- E a gente põe no macarrão?

- Pode por. Ou em outras coisas.

- E você vai por azeitona, também?

- Vou.

- E o que mais?

- Cebola picadinha, alho, cheiro verde.

- Hummm... Acho que vai ficar uma delícia.


Quando servi o prato, ela olhou desconfiada. Eu estava temerosa disso. Eu nem usei o termo "co-gu-me-lo", me pareceu muito arriscado. Então, era isso. Ela ia olhar e não ia comer. Eu tinha certeza.

- E é só isso que eu vou comer?

- Como assim, filha?

- Só isso?

- É, ué... a mamãe fez esse macarrão.

- Mas não tem, assim... brócolis? Uma beterraba?


Incrédula, busquei a salada na geladeira.
E ela comeu um prato de macarrão alho e óleo com shiitake, acompanhado de uma salada de alface, tomate grape, rabanete, beterraba e brócolis.

Eu não gostei do macarrão.

Espero que um dia Ana Clara me ensine a comer essas coisas. Ela já está tentando.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Pequena Menina Que Era Grande - e de Volta

Era uma vez uma menininha pequena, que na verdade era grande...

- Você vai fazer faxina pra Malu chegar?
- Vou.
- Então, dá um pano pra mim, por favor? Que eu ajudo.

- Mamãe, você olha o Lucas um minutinho, pra eu ir no banheiro?

...que era pequena.

- Mamãe, eu te amo...
- Eu também. E é um amor puro, desinteressado, não precisa de nada pra ser amor. Nem, digamos assim, de uma bala.
- ...Mas quem sabe uma ameixa?

- Você tá ligando pra quem?
- Pro meu chefe.
- Por quê? Você tá com muita saudade dele?

(Lucas começa a chorar)
- Ih, mamãe. É pra você, acho.
- É pra mim?
- É. Temos um paciente pra você. Paciente "Mamá".

<3

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Ah, Serafim!

Filhos não deveriam ficar doentes.

Filhos, de nenhuma maneira, sob nenhuma hipótese, poderiam ficar doentes.

Filhos são a engrenagem central do maquinário "mãe", e se eles não funcionam como previsto, a mãe não raciocina, não come ou come o mundo, não dorme. Toma banho, né, porque a sociedade julga.

E tendo dito isso, aviso ao Lucas e a Clara que estão proibidos de me colocar nessa situação de novo.

Que chega de febres e gripes e tosses e alergias, vermelhões nem pensar, e só serão tolerados arranhões MUITO leves se forem oriundos de horas intensas de brincadeiras. E dores, só na barriga e de tanto rir. E lágrimas pelo mesmo motivo. Ou de saudade que passe logo.

E nada de remédios, porque não precisaremos deles.

Só de vocês, remédios para o coração apertado da mamãe.

Só de vocês, razões de alegria e tranquilidade neste lar.

Vocês, minha razão.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A incrível criança que quer lavar minhas costas

Vi no feriado último a chance máxima de férias com a Clara. E com o Lucas, mas, bem, o Lucas está sempre de férias nestes seus sete meses - a novidade era para a primogênita.

E então eu sentei no chão. E nós brincamos de escolinha, por escolha dela. Lá pelas tantas tinha a história do pão do Seu Zé Rico - toca a mãe a achar uma receita que parecesse, a gente faz e toma café. Ela ajudando. Tá frio, tomara que o pão cresça. Tomamos café, no fim das contas. O Lucas no meu colo, sorridente.

- Ele é meu colega? Tá na minha sala?

- Tá.

- Mas na minha sala não tem bebê.

- Mas na sala da Tia Anita tem.

Esse era o combinado. Eu não era a mãe, mas também não podia ser a Tia Fê, da escola. Nem o Lucas podia ter nome de amiguinho. Então Filipe, o príncipe da Bela Adormecida. E ela me mostrou que sabe contar mas tem preguiça - adivinhar é muito mais gostoso! - e que tem uma criatividade linda - "cola esse, eu vou fazer as janelas de canetinha".

E empinamos pipa, brincamos no parque. Ela dormiu no meu colo, cansada. E passeamos. E ela foi criança e eu fui um pouco também, e até o Lucas que é bebê teve um vislumbre de como é ser criança para sê-lo em breve.

No outro dia de manhã, levantou e veio atrás de mim, no banho:

- Mamãe, também quero tomar banho! Abaixa aqui, deixa eu lavar as suas costas, que você não alcança...

Tantas coisas, Ana, que se não fosse por você, eu jamais alcançaria. Fico pensando onde você e seu irmão vão me levar, juntos.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sobre gratidão

Ela nem tossiu tanto essa noite - quase não tossiu, na verdade, dormiu bem e acordou tranquila. Lucas dormiu mais da metade da noite no berço e acordou ótimo.

Brincamos de escolinha e Clara somou. Lucas comeu uma banana inteira de manhã e meia manga à tarde.

Arrumamos quase todos os brinquedos.

Passeamos por aí e ela e o pai combinaram de soltar pipa amanhã. Eu nunca soltei pipa. Amanhã.

Lucas tirou as meias e as jogou no chão do Wal Mart.

Fiz macarrão e ficou bom.

E teve horas que as coisas não seguiram o script. Não importa: eu tenho que olhar pra tudo e ser humilde em dizer: gratidão. Que Deus continue nos protegendo e abençoando.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Questão de gênero

Acho uó o lado segregador de gênero da nossa língua pátria - o que não me impede de, ainda assim, achar o português o idioma mais lindo, mais sonoro e mais foda do mundo. Mas, né, bota na cabeça da criança que eu e ela é "nós duas", Lucas e papai é "os dois", e ela e o Lucas também são "os dois". Que ela está vestidA e o irmão está vestidO. Ok.

Aí ontem, chamegando antes de dormir:

- Você é a minha riqueza! E o Lucas também é minha riqueza! E o papai também - tenho três riquezas!

- Não, mamãe...! Eu sou riqueza. O papai e o Lucas são riquezos! Lembra?

Tava tarde, amanhã eu explico. Ou não. Quando ela estiver grande eu vou sentir saudade desse tempo em que o Lucas era "riquezo" e os dinossauros "existem, sim, papai!"...

terça-feira, 30 de junho de 2015

Experimentando

Desconfiada dos leites em pó, comprei um leite mais próximo do leite da vaca.

- Eu não quero esse leite!

Coisas da idade, coisas do gênio característico da Clara, coisas de ter um irmão mais novo no leite em pó. Comprei mesmo assim.

Chegamos em casa. Tomou o leite.

- E aí? É muito ruim o leite?

- É um pouquinho ruim. E muito gostoso. Pode ser assim?

Pode, Claraboia. Pode ser assim.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sonhos que se realizam ou da série "de ser grata"

Chegando perto dos trinta anos.

Olhando para trás e para o que temos a frente.

Olhando meus filhos dormindo ao meu lado.

Olhando o pai deles.

Eu cantei.

"Foi você
O sonho bonito que eu sonhei
Foi você
Eu lembro tão bem
Você, na linda visão.
Que me fez sentir
Que o meu amor nasceu então
E aqui está você,
Somente você,
A mesma visão...
Aquela do sonho que eu sonhei".

E em inglês me parece ainda mais bonito...

"I know you, I've walked with you once upon a dream... The gleam in your eyes is so familiar a gleam"...

terça-feira, 23 de junho de 2015

Demorando

- Oi, mamãe!

- Oi, filha! Tudo bem com você?

- Tudo! Tô aqui te esperando...

- É mesmo?

- É, pra gente brincar!

- Ô, filha...

- Mas vem logo, que você tá demorando muito...!

- Mas é que a mamãe tá trabal...

- Então, vem logo, porque o Lucas tá com saudade!

- O Lucas?

- É. O Lucas tá muito com saudade. E a Mirna. O papai. E a Ana Clara... da mamãe.

A mamãe também tá com saudade.

A mamãe acha que ela inteira é saudade...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Aquilo que você diz

Todas as vezes que Clara teve crises - e para crises, entenda qualquer tipo de crise - eu primeiro tentei resolver com um banho.

Se foi alergia.

Se foi birra.

Se foi uma molezinha de gripe, uma febre...

Eu preciso limpar. Fisicamente, mesmo que não seja físico. Preciso enfiar ela debaixo do chuveiro para recomeçar, para reorganizar, para a água levar para o ralo o que é do ralo e ela ser ela, na sua essência. Faço isso comigo, faço isso com ela.

Ontem chegamos do SESC depois de dançar ciranda e outras coisas, areia de parquinho e tudo mais. Ela estava coçando o pescoço - suor, cabelo, roupa... acontece, uma coceirinha inocente.

- Sabe, mamãe, acho que eu preciso tomar um banho pra dormir. Eu tô coçando.

- Coçando? Ah, é do suor...

- É. Preciso tomar banho. Pra dormir.

Dei banho nela.

- Passou?

- Agora passou.

Aninhou na cama, assistimos um pedaço de um filminho enquanto eu fazia cafuné. Ela pegou no sono logo, serena e limpa - só essência.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A menina dos cachos dourados conhece o menino de cabelos vermelhos

Acho que se um dia eu fosse escrever a história de quando Lucas chegou na vida da Clara, esse seria o nome. "A menina dos cachos dourados conhece o menino de cabelos vermelhos". Ou "cabelos de fogo", talvez tivesse mais vendagem e atraísse mais a curiosidade das crianças.

Não tenho irmãos - pelo menos não no trato diário. Tenho meio-irmãos, que conheço virtualmente, e que descobri tardiamente. Não tive nada dessa vivência louca de ter alguém dentro da sua casa o tempo todo, invadindo o seu espaço, dividindo suas coisas, a atenção dos pais. E que barato é observar isso. Observar a Clara se adequar a mais um - esses dias, queixosa, me disse que "queria uma criança só!", com o dedinho em riste, para segundos depois se debruçar sobre o carrinho - beijar, abraçar, brincar com o irmão. Observar o fascínio do Lucas por este ser satélite da sua gestação e nascimento - sempre ali, sempre perto, sempre a voz dela, aquele toque, e o olhar, e as brincadeiras.

Eu os vejo amarem um ao outro sem saberem direito o que é amar. Sem se preocuparem com isso, também, porque é inato, natural e sem propósito. Puro.

Ele sarando da gripe, ela mexendo com ele.

- "Vamos dormir, Luquitas!".

E estende a fraldinha fechando o carrinho. Ele gargalha. Gargalha. Nós, os adultos, passamos minutos a fio no "brrrr", "cadê", cosquinha, o que for, para ganhar um sorriso de soslaio. Ela assopra, ela gira, ela faz um salto de ballet, ela canta um pedaço de uma música que não existe - e ele se desmancha.

Assistindo à cena, perplexos, nós nos desmanchamos em seguida.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Das coisas que se sabe que não se sabe

Quando eu decidi ter um filho - e aqui é "eu", mesmo, porque eu decidi muito nova, comigo mesma, que teria um filho (sem saber quando, sem saber se teria pai, sem saber se seria de outra barriga, sem saber nada disso) -, eu não passei um átimo de segundo na questão "mas e meu corpo, que será que vai acontecer?". Eu passei horas na questão, "mas e minha cabeça, o que será que vai acontecer?".

Anos mais tarde, quando a decisão foi minha e do Rafa, por um filho naquela hora ou dali a nove meses, com pai e da minha própria barriga, essa questão voltou a me assombrar e mais completa: e do meu coração? O que será?

Eu não sabia, mas já tinha uma boa dose de desconfiança, que filhos nos mudam no nosso íntimo. Eu sabia, como já disse, que um filho viria para me mostrar que eu não sei o que penso que sei, e que talvez até saiba aquilo que nunca imaginei ou pensei que já tivesse esquecido. Sabia que um filho romperia com as minhas poucas verdades, como eu já disse tantas vezes, e por mais que estivesse pronta para abrir mão de tudo ou qualquer coisa, eu não sabia o que isso faria de mim.

E ter um filho... Que amor sem limites. Ter dois, você pega o limite que já não tem para amar e estica até dobrar no infinito. Você quer que um durma para poder dar atenção para o que está amuadinho, depois dormem os dois e bate a culpa: só porque ele não está amuadinho, não significa que não precisa de atenção... Você põe os dois no colo e brinca um pouco, pensando, "são tão pequenos, precisava de ter dois colos"...

Clara, nos últimos dias, me levou a duas situações que eu não imaginava. Me arrastou, literalmente, atrás de uma procissão. A procissão da minha infância, Corpus Christi. E me pediu, quando chegamos na igreja para a bênção final, "mamãe, vamos vir na missa?".

Fomos à missa. Lá pelas tantas, é óbvio, ela se entendiou como boa criança. Mas eu fiquei pensando... Como meus filhos me trouxeram minha religiosidade de volta - magnificada, mais completa, mais confusa, até, mas muito íntima. Me devolveram a inocência de fechar os olhos e pedir com o coração. Quando eu era pequena, pedia um irmão adotado, um cachorro ou um gato, um amigo. Hoje eu peço pelos que eu amo, "olha por eles". E peço num sopro, "acalma meu coração"...

Quantas vezes eu pedi isso aos céus. Que acalmassem meu coração. Pedi ao céu na forma de Deus, Jesus, aos santos quase todos, mais vezes aqueles que me parecem mais "chegados", a minha mãe, avó, tia-avó... E tantas vezes eles me ouviram. Porque esta era a minha maior certeza e foi também a minha maior surpresa, o que ser mãe foi capaz de fazer a minha cabeça e ao meu coração, a minha alma inteira.

E eu o faria de novo. Pensando na poesia, acho que ele estava errado. O melhor dos filhos é tê-los. Se você estiver disposto. Se você estiver desperto. Se for capaz de semear o bem e o amor sabendo que não é você quem vai colhê-los, mas os seus pequeninos.


Tem aquela música, e meu pego pensando.
Ah, só eu sei quanto amor eu guardei. Sem saber que era só pra você...
Mas "você", aqui em casa, é mais de um.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Cruz sagrada, seja minha luz
Não seja o dragão meu guia
Retira-te, Satanás,
Não me ofereça coisas vãs.
O que me ofereces é mal:
Bebes tu do teu próprio veneno.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Fui eu que fiz?

Crianças são incrivelmente surpreendentes, o que é chamá-las de incríveis duas vezes. Às vezes desgastam todo seu bom humor numa birra interminável, às vezes te desarmam sendo doces e educadas e tranquilas quando você acha que tudo aponta contra.

Fomos comprar o presente da amiguinha. Eu disse a ela antes de sair de casa, "pegar o presente DA AMIGUINHA". Ok.

Entramos na loja de brinquedos, olhamos algumas coisas, ela escolheu um item de preço extremamente razoável.

- Mamãe, já escolhi o presente da minha amiga. Vamos pagar?

Eu e o papai queríamos ver brinquedos. Eu e o papai ainda achamos (muita) graça em brinquedos.
Ela me mostrava uma coisa ou outra, às vezes dizia "vamos pro caixa, mamãe? eu já escolhi...".

De repente eu enxerguei o que pensei que seria o supra-sumo. O castelo da Elsa, do Frozen, em LEGO. Meus olhos brilharam. Os personagens: a Elsa, a Anna, o Olaf. Que belezinha! Parte de mim desejou, secretamente, que ela pedisse.

- Olha, filha, que lindo!
- É da Elsa! E tem a Anna! Um castelo! Do Frozen!... Mamãe, vamos pro caixa? Porque eu já escolhi o presente da minha amiga...

Fomos pro caixa.
Eu fiquei meio borocoxô, porque era muito lindo o castelo.
Eu fiquei incrivelmente orgulhosa, porque é tão sensata a minha Ana.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Segurando a onda

- Olha, mamãe! Tartaruga!

Tortuguitas.

- Ai, Aninha... Não pode!... As alergias...

Chorou baixinho, tristonha. Eu fiz o que dava: distraí, brinquei, fingi que não queria chorar de impotência, mesmo que tortuguitas sejam uma porcaria industrializada.

Saindo do mercado, de novo:

- KinderOvo! Dos Minions!...

- Mas Ana, a alerg...

- Só o brinquedo. Você come o chocolate.

No carro, abri o brinquedinho. Entreguei, e ela:
- Come o chocolate, mamãe. É pra você. Vê se o papai quer!

Ainda bem que eu estava no banco da frente, ela não viu nenhuma das minhas lágrimas. Minha pequenina, tão cheia de grandezas.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A bolha

Eu nunca entendi a necessidade que minha mãe sempre teve, e beirava a patologia, de me manter dentro de uma bolha.

"Não vai hoje na escola, não, está chovendo".
"Muito frio".
"Ontem à noite, você estava quentinha, fica em casa".
"Aniversário de quem? Acho que não".
"Na rua? Nem pensar".
"Olha o sereno!".

Eu nunca entendi é maneira de dizer. Agora eu entendo, perfeitamente.

Acordo de madrugada e penso, "virou o tempo, deve ter um monte de criança gripada. Acho que vou deixar ela em casa".

Vejo as crianças brincando, correndo, e me pego pensando "será que não é muito esforço? Vou lá buscar ela pra beber água, pelo menos para um pouquinho...".

Vamos ter que sair nesse tempo? Tome aqui o casaco, veste a touquinha, deixa ver essa meia... Por via das dúvidas, vamos colocar uma calça mais grossa.

Proteger os filhos é a tarefa mais instintiva da mãe. Tenho medo de ficar como o Marlin - se você não deixa nada acontecer ao Nemo, nada acontece ao Nemo. Mas assumo que tenho desenvolvido uma leve neurose superprotetora recentemente, e tentar domá-la é parte constante dos meus dias.

Nem sempre consigo domar esse instinto muito bem, sabe. Percebo isso nas respostas e trejeitos da Clara.
Liguei pra casa:
- Oi, filha!
E ela, muito pronta:
- Oi, mamãe! Tá tudo bem.

Não me deu nem tempo de perguntar... Mas, que bom, graças a Deus, a pressa dela foi pra dizer que está tudo bem...




quinta-feira, 28 de maio de 2015

E agora?


- Mamãe, você bocejou e não colocou a mão na boca!

- Verdade.

- Tem que colocar a mão na boca.

- Mas eu estou dirigindo, quando a gente está dirigindo, não pode tirar a mão do volante.

- Ah.

Passei a marcha.

- Mamãe, mas você tirou a mão do volante!



Quando tem concurso pra "agente fiscalizador"? Vou inscrever Ana Clara.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Os prazeres e os dias

Quando Clara me disse que queria fazer ballet, minha primeira reação foi entrar em pânico.

Tinha prometido pra mim mesma que não seria essa mãe. A mãe que empurra para trocentas atividades, sobrecarregando a criança. A mãe que cria expectativas e vai empurrando - vai ser bailarina! vai ser nadadora! vai ser gênio! Eu tinha feito a promessa para mim, e acho que é a promessa mais difícil que uma mãe possa fazer, modéstia à parte, de que Clara seria Clara, e que eu estaria sempre aberta para descobrir quem ela é.

E aí, nesse meio, no meio de ser quem a Clara é, no meio de respeitar a promessa que eu fiz e renovo a cada dia, veio o pedido - eu quero fazer ballet! E não é que ela quer, mesmo?

Eu achava que agora, em maio, Ana Clara já teria visto enferrujar a mágica do ballet. Como todas as coisas, por mais que eu tenha pesquisado e encontrado quase que instintivamente um lugar que interpreta isso, para essa idade, como um processo lúdico e não como um molde engessante e limitante para profissionais do futuro, achava que depois de quatro meses de ballet a repetição constante, as horas empregadas, o trabalho de colocar e tirar a roupa já teriam descolorido o sonho de "ser bailarina" e ela iria preferir ficar em casa com as bonecas.

Ledo engano. Tanto quanto o foi com a escola. "Ah, deixa ela ir, quando ela pedir pra ficar em casa, eu tiro. Ano que vem ela volta". Clara não vai pedir pra ficar em casa. Eu sei que não. Eu acho que já sabia quando ela pediu pra ir, mas foi difícil lidar com a descida da torre, com o fato de não poder cercá-la mais na nossa bolha de afeto.

E a cada dia eu me surpreendo mais.
A cada dia Ana Clara me convida a conhecê-la, e como é inesgotavelmente enriquecedor nunca negar esse convite.
Descobri-la disposta e engajada, autoritária e amorosa. Sabê-la amante das pessoas muito mais que das bonecas ou dos brinquedos, da TV ou do sossego.
Como foi iluminado o dia em que eu me senti pronta para este novo ser. E como são iluminados todos os dias com ela e com o Lucas. E como será incrível descobrir também a ele, meu galeguinho boa praça, risonho e ao mesmo tempo exigente. Como Lucas e Clara se parecem nesse aspecto: agridoces. Dispostos sempre a um carinho, daqui um minuto chorando sentidos porque não conseguem montar o brinquedo...rs...

Vê-los crescer é a parte mais desafiante da minha vida.
Porque me lembrou das certezas que eu não tenho e continuo não querendo.
Porque me fez assumir o meu lado mais aberto, mais libertário e mais afável.
Porque me faz sentir que o que há é amor, amor e só. E para além disso são nossos dias, costurados como a mortalha adiada de Ulisses: coser e descoser, para nunca estar pronto. Que nunca estejamos prontos...

sábado, 16 de maio de 2015

Voltando

Esta semana volto ao trabalho.

Estou ansiosa e em pânico, como todas as mães que voltam ao trabalho. Isso justifica em parte porque algumas nunca voltam. Porque algumas voltam e desistem. Vamos ver como continuo a escrever a minha história...

Essa noite o Lucas abriu os olhinhos. Se viu no meio meu e da Cacá, na nossa cama compartilhada. Esticou uma mãozinha e segurou a mão dela. Depois esticou a outra mãozinha e segurou a minha. Sorriu, seguro, fechou os olhos e dormiu. E eu me senti imensamente preenchida naquele sorriso, no sono tranquilo dos meus pequeninos. Completa com a família que eu formei, que Deus me permitiu formar, com os filhos que me confiou, com o companheiro que colocou no meu caminho.

E daí me ocorreu... Que eu precisava mudar o título do blog. O blog que foi feito para contar as peripécias da uma Ana da minha vida, que me fez para sempre outra. Agora as peripécias são também do Lucas. E pensando na outra que eles me tornaram, mudei o nome sem mudar. Uma Ana e Outra, Uma Ana é Outra. Uma das Ana's desta equação mudou para sempre num pequeno espaço de tempo.

Mudou para pior, nos níveis de ansiedade, stress e preocupação...rs.

Mudou para melhor em todos os outros níveis. Não que eu me ache grande coisa. Pelo contrário, estou permanentemente ciente da minha pequenez e insignificância. Isso simplesmente não me atormenta mais do mesmo tanto. Me sinto pequena, insignificante, e imensamente feliz com as minhas três enormes riquezas...o Rafa, a Aninha, o Lucas.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Sexismo pra quê e outras histórias

No banheiro do consultório:
- Mãe, este é de menina?
- É.
- Mas o de menino, o que tem de diferente?
- Às vezes tem mictório...
- Mas era igual o nosso.

Passamos na porta, estava aberta, era mesmo.

- Este é.
- Então por que menina só pode usar este?
- Eu...
- Porque é igual! Eu vi! E se tiver outra menina lá fora ela tá esperando, mas não podia (nota do autor: acho que o verbo desejado aqui era "precisava"), podia usar o de menino, que é igual e também faz xixi.
- Bom, acho que sim.
- Todas essas coisas, eu não entendo porque!

Abriu os braços, indignada.
E pra finalizar com chave de ouro:

- Mamãe, isso aí do lado é pra trocar bebê.
- Isso mesmo, filha!
Já ia emendar um "igual ao que a mamãe tem em casa pra trocar o Lucas!" quando veio a pérola:
- Não é de por a sua bolsa!

Fazer o quê. Quando ela tem razão, ela tem razão.

sábado, 9 de maio de 2015

Quando o amor impera

O cravo BRINCOU com a Rosa. E não tem nada de ferimento, despedaçamento, desmaiamento - o cravo fica doente e a rosa chora. Pronto.

Atirei o pau no gato, nada, a música é um mistério e depois "não devemos maltratar os animais: MIAU!".

E quando me abraça, achando que já é amanhã: "te amo, mamãe. Feliz dia do amor!".

Feliz dia do amor, que seria das mães, mas é que mãe é amor puro, mesmo.

E nas palavras da Clara o amor sobra, pois nela reina, soberano.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Se liga, mãe!

Lendo a história pra dormir. Ela agitada, num vira e desvira frenético.

- Clara, meu amor...sossega. Fecha o olhinho, para de mexer, pra dormir!...
- Mas mamãe, não vou dormir... Você nem me deu o remédio. Você esqueceu meu remédio, mamãe.

Eu tinha esquecido.
Dei o remédio.
Acho lindo que ela lembre, sabe. Mas...onde é que já se viu, isso?!


segunda-feira, 4 de maio de 2015

O que você vai ser quando crescer?

Trocando o curativo do pé.

- Mamãe, você é médica?
- Médica? Não, filha... Não sou.
- Ah, queria que você fosse médica.

Considerando-se os dias que passaram, de gripinhas, alergias, coisinhas... pensei um instante:

- Sabe, às vezes eu também queria ser médica.
- O pai de Fulano é médico.
- É mesmo?
- É. Fulano falou.
- Legal, né?
- É. Mas o que você faz, então?
- Eu sou arquiteta.
- Asteca?
- Não, ar-qui-te-ta.
- Ah... O que isso faz?
- Faz casa.
- Casa?

Peguei o brilho no olhar dela. Não deixei ele sumir.

- Faz casa. E prédio.
- Prédio? Que nem o da Tia Talita? Da Malu e do João?
- É. Como os prédios deles. E de outros tipos, também. Escola, hospital...
- E o que mais?
- Mamãe queria muito fazer praça, parque...
- Parque?!
- É. Quem sabe um dia eu consigo fazer um.
- Minha mãe faz parque!

E saiu repetindo, correndo pela casa, empolgadona.
E eu nunca fiz um parque sair do papel.
Talvez eu nunca faça.


Mas sabe, eu acho legal ser arquiteta. Hoje foi muuuuito legal.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

A dúvida eternizada pelo The Clash

Sempre saímos com a Clara. Não madrugada a dentro, mas tantas vezes curtimos o Happy Hour com ela, até na sinuca. Mas então surgiu (mais) uma pedra no caminho da minha maternagem: o bar/restaurante/pizzaria que quer entreter.

Essa é uma dúvida gigantesca que eu tenho. Quero ir a estes lugares com piscina de bolinhas, parquinho ou até papel de desenhar?

Não sei, mas me parece que a criança é um fardo. Você chega, senta e cinco SEGUNDOS depois, se materializa o garçom com o desenho (sexista, obviamente, por que não?) e lápis de cor com o grafite quebrado ou giz de cera ressecado e dividido cada um em cinco partes. Parece que estão me dizendo "mais fácil pra senhora e pra nós, vamos conter seu pequeno gremlin, combinado?". Eu nunca disse "não, obrigada, pode levar". Mas me recriminei por não ter dito, às vezes até pra não tirar isso da Ana - ela já viu, já quis, tantas vezes a oferta é feita diretamente a ela, peso rapidamente os prós e contras de interferir e boicotar e, temendo estragar a noite de todos, finjo que ok. Mas sinto que não devia.

Não quero sair "apesar da Clara " - e agora do Lucas, também. Quero sair COM eles.

Na minha casa nunca houve "a mesa das crianças", eu almocei e jantei com todo tipo de visita - mais crianças, meus tios, os amigos da igreja da minha avó, o Padre... Também não me deram lápis de cor, nem tablet, nem nada. E pra mim não era maçante - era legal! O Padre tinha uma cabeça bem bacana e um dia eu perguntei, à sugestão do tio que conhecia minha dúvida, porque o Natal não era 01 de janeiro se o nosso calendário é cristão e se inicia no nascimento de Cristo. E ele respondeu, e nós conversamos, e eu aprendi que isso também é entretenimento e é muito bom...

Se há parquinhos, se há Discovery Kids, brinquedoteca, as crianças simplesmente se ausentam de suas mesas e lá se vai a minha Claraboia com elas. Nem precisa sair. Às vezes isso acontece em casa. Eu mesma sou a vilã - vem cá, vou colocar o netflix pra você... Quando escrevi "netflix" o corretor substituiu por "negligência", e foi assim mesmo que eu me senti: negligente.

Sei que nós somos humanos e isso é normal. É normal querer cinco minutos entre adultos, sem ter que driblar uma birra, sem vigiar os perfuro-cortantes sobre a mesa. Mas algo me diz que isso deveria ser exceção e não regra. Estar com nossos filhos e olhar para eles deveria ser a regra, independentemente do lugar - ouví-los, prestigiá-los, ensiná-los o pouco que se sabe de socialização, compartir.

Meu final de semana foi muito diferente do que eu estou dizendo aqui. Clara mais reclusa, eu tentando respeitar o seu desejo de reclusão e ao mesmo tempo me culpando por ter liberado o Netflix antes das visitas chegarem. Ao mesmo tempo, curtindo poder me abrir sobre o que acontece com ela com gente que eu amo e que me faz bem, que me ajuda a pensar e decidir. Mas aí chegou no WhatsApp um áudio lá do Rio de Janeiro que me fez ponderar tudo... Me fez encarar um pouco a pessoa em que me transformei depois de todos esses quilos e dessas duas preciosidades que vieram do meu ventre. E não há nada que eu queira mais do que estar com eles... Por eles, para eles, mas principalmente por mim. Como me faz bem estar com eles. E acho que preciso reconsiderar até isso, meu jeito de sair com eles, seguir meus instintos - nem que seja selecionando melhor os lugares. Envolvê-los mais e sempre.

Acho que a maternidade será sempre assim. Cheia de dúvidas, tentativas, acertos, erros. Lá no fundo eu me perguntando, silenciosamente, à frente de cada decisão - should I stay or should I go, now?

sábado, 25 de abril de 2015

Coisa pouca

Barulhão lá no quarto, eu dando de mamar ao Lucas na sala.

- Ana! Que barulho foi esse?
- Nada...
- Mas o que que caiu?
- Só eu...

Ai, Jesus...

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Falando em princesas...

Quando ela nasceu,
Papai e Mamãe souberam, sem demora:
"Será nova luz no nosso mundo -nossa Clara, Claraboia"

Tinha nascido princesa
Mas não a princesa de outrora;
Já veio ao mundo sacudida,
A menininha lambisgoia

Papai e mamãe bem avisaram à bruxa,
Quando veio com uma conversa de espetar o dedo à roca
"Não precisa de esconder na floresta,
Beijo de príncipe ou presente de fada;
Nossa menina é muito esperta,
Se pensa que a fará dormir 100 anos, a senhora está muito enganada!".

A bruxa era teimosa, e o feitiço lançou
Mas Clara, Claraboia, facilmente o dobrou
Viu a torre e a roca, nem pensou em fugir,
Driblou a curiosidade e foi a vida seguir.
A bruxa, achando intacta a cena do plano,
Pôs o dedo na agulha da roca, a fim de verificar um engano,
"Por que a princesa não dormiu?"
E agora dorme, serena - faltam só 99 anos.

A outra, porque a princesa gulosa cobiçou seus rabanetes,
Não aceitou desculpas e mostrou-se demente
Fez-lhe crescer cabelos enormes
Raptou e trancou no alto de uma torre a nossa princesa
Mas quando pensou visitá-la e gritou para que jogasse as tranças
Claraboia tinha fugido, há muito, numa "teresa"!

E aquela da maçã, nunca mais foi a mesma
Quem diria que à Clara princesa interessava cultivar
"Tenho minha própria horta de orgânicos, minha senhora,
Sua maçã não tenho interesse em provar"
A bruxa descobriu que a alimentação era o segredo da outra beleza
Aposentou o espelho reclamão, e pôs mais saúde à mesa 

E o lobo e o dragão, estes sim são história a parte
A princesa Clarinha sabe que amar aos animais é por si só uma arte
Construiu nos fundos da casa uma toca confortável pro dragão
E o lobo, vira e mexe, aparece pra uma partida de gamão

O que a princesa Clara já sabe,
Muita gente ainda não aprendeu
Que bem e mal estão na gente,
Caminham ao lado do nosso "eu",
E não há quem nos proteja
Do que está dentro de nós
Por isso mais do que de príncipe e fada madrinha,
Precisamos de coragem mesmo quando estamos sós

Papai e mamãe ganharam nova luz no mundo
Mas que riqueza foi descobrir,
Que a menina era seu próprio sol,
Pronta para iluminar e aquecer
E assistiam a sua menina irradiar amor
Enquanto seguia a crescer

quarta-feira, 22 de abril de 2015

What goes around....

Não vou dizer que me gabei porque a primeira palavra da Ana foi "mamã". Mas me gabei, obviamente.

Aí, hoje, almoçando:
- Mamãe, qual foi a minha primeira palavra?
- Foi "mamãe", filha.
- "Mamãe"...? (Com os olhos arregalados)
- É... (Suspirando nostálgica)
- Ah, que pena. Queria que tivesse sido "papai".

Humpf.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Filho são, mãe em mente sã

Dias agitados.

Lucas com prisão de ventre, no choro dolorido e no mau-humor característico das crianças enfezadas. Estava lidando com isso, Clara entrou em crises de vômito. Quando chegamos na bile, liguei aflita para o pediatra - vocês aceitam meu rim por uma consulta AGORA?

E os dois rins pra ela parar de vomitar?

Talvez o fígado e o Lucas também é atendido e consegue fazer o cocô?

E todas as minhas economias?

Quem sabe serviços de arquitetura e urbanismo?

Faço bico na faxina, também, se precisar.

Não sou muito boa nisso, mas posso entreter.

Lá pelas tantas, uns cinco minutos depois que eles nascem e você os tem nos braços, fica muito claro: você daria tudo, trocaria tudo, abriria mão de tudo, do que você tem e até daquilo que nem sabe se um dia teria, abriria mão até de quem você é, para vê-los bem. E fica bem frustrada, até, porque não é assim que funciona...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Se tinha jeito de doer mais

A escola. Eu tinha medo da Ana ir pra escola. "Ela vai aprender coisas novas". Que argumento horrível. "Ela vai fazer amigos". Que argumento pior.

Já falei aqui da minha relação dúbia com este lugar. Da escola levo um marido, meia dúzia de amigos e meu melhor emprego. E uma série de complexos e mágoas. E, Deus, como eu queria proteger a Ana dessa parte...

Quantas vezes chorei na escola. Quantas! Hoje a minha Ana chorou pela primeira vez. Porque a amiguinha que ela quer, não a quer de amiguinha. Ela se faz as mesmas perguntas que um dia eu já fiz, "eu não sei por que". Ela usa a mesma lógica falha que eu já usei, "mas eu sou amiga dela!". Mas ela é ela, e nestes momentos eu simplesmente torço pra que ela lide com isso melhor do que eu lidei, mais sabiamente do que eu lidei.

Mas eu vi, hoje, mais uma vez, que é tudo verdade. Que nos filhos, dói mais. Que quando você pensa "tudo bem se elas não querem ser minhas amigas, eu vou ficar legal" é ruim, mas ter que dizer isso ao seu filho é muito pior.

É aí tem a máxima..."são só crianças. Amanhã estão às boas". São. E estarão. Mas a experiência me diz que o caráter aparece desde cedo. Que a crueldade que se tem aos três anos para se dizer "não sou mais sua amiga", não desaparece. As crianças simplesmente crescem e deixam de ser honestas ou pelo menos tão diretas. Também não tem mais que lidar com uma "tia" que prega que todo mundo é amigo de todo mundo, e não precisa tanto esforço pra se voltar às boas tão rápido.

Antes de dormir, ela recomeçou a contar a história, confusa e triste, pelo meio teve um "ninguém é minha amiga" depois de uma sequência de nomes que me cortou o coração. Eu disse a ela que amizade é uma coisa complicada, que não precisa de pressa, que ela florece naturalmente com o tempo e que eu estou aqui. Lá dentro, queria blindá-la, como se houvesse a opção de simplesmente ser feliz...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Elas

Tem horas que eu paro tudo, sinto o nó na garganta, sorrio e recomeço.

Quando a Clara me disse "pode cobrir, mamãe, mas o pé, não, por favor, porque, sabe, não consigo dormir assim...".
E "mamãe, eu não gosto de cosquinhas!", séria.
"Corta essa etiqueta? E depois essa, por favor?".
E fui secar o ouvido com cotonete e ela tossiu, seco.

Porque lá dentro de mim, havia dejà vu. Eu estava diante de outra... Ouvi minha mãe dizendo, "impossível dormir com os pés cobertos. Impossível, detesto".
"Cócegas em mãe não pode. Proibido!".
"Por que tanta etiqueta? Por quê? Traz a tesoura, vou cortar tudo!".
"Eu mexo no ouvido, me dá tosse. Desde pequena é assim. Em você, não?".

Ver as duas matando insetos freneticamente, mesmo eu sendo da paz.
As duas me dizendo pra comprar roupas, porque as minhas estão feias ou não servem, mesmo eu sendo anti consumismo.
As duas observando atentas às rugas dos meus anseios, antes no meio da testa, agora entre meus olhos - "por que isso, o que você tem?".

É um tanto inexplicável. Mas acho que eu te pedi tanto de volta, mãe, e tive tanto medo de te esquecer nas miudezas, que o Tempo me devolveu pedacinhos seus nas minhas riquezas. O sorriso do Lucas me lembra o seu...

Por isso eu sinto o nó. E sorrio, cheia de saudade. E recomeço.

domingo, 5 de abril de 2015

Passagem

Na Páscoa passada eu acabava de descobrir que esperava um bebê. Um novo bebê, depois de um aborto espontâneo que me chacoalhou inteira. Ele estava vindo.

Nesse tempo de transformação, eu me tornava mãe de dois. Não sabia, mas era já a mãe do Lucas. Passava a integrar um núcleo familiar com quatro membros. A população masculina da casa entrava em pé de igualdade com a feminina - se contar o Hórus, eles tem vantagem...

Na Páscoa passada, recebia a promessa da boa nova que hoje habita meus braços. Nesta Páscoa, agradeço. E renovo minhas esperanças, renovo meu coração, pedindo em silêncio que meus anseios se acalmem, que meus medos não me ceguem, que minhas tristezas se afastem, e nada fique no caminho de perceber o quanto sou completa com a família que escolhi. Como é fácil, na correria dos dias, esquecer. Como é fácil entornar o caldo e implantar o caos - porque um não para de chorar de cólica, porque uma fez birra, porque os hormônios me azedaram. Mas como é importante contornar tudo e ver. Ver o que e quem eles são: o sonho que eu sonhei desde menina. A vida que chegou. E em tempo de Páscoa, abrir espaço no coração para que eles continuem a me transformar...

sábado, 4 de abril de 2015

Dias e dias

Tem dias que não é não, vamos é vamos, agora é agora, depois é depois. Assim.

Tem dias que não é a porta de entrada do inferno, vamos é não, agora é depois e depois é agora. E não tem nada que signifique "vamos"...

Fico me perguntando se são os dias do segundo parágrafo que ocasionam os dias do primeiro - isso chamaria "educar", num estilo meio behaviorista. Ou se os dias do primeiro parágrafo trazem os do segundo - isso eu chamaria "revolução".

Dias e dias. Um de cada vez, um depois do outro, e eu tentando aprender.