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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Me falaram

Me falaram que se eu ficasse assim, pegando ela no colo o tempo todo, dando aconchego e mimo e paparico, ela ia ficar muito dependente.

Amamentar também, até sabe-se lá quando, pura dependência.

E se acostumasse a dormir comigo, certeza que a independência seria tardia - tardia demais, capaz de nem acontecer.

E não era pra deixar ela se alimentar no meu colo.

E não era pra deixar ela no colo a não ser que estivesse com dor ou se esgoelando de chorar.

E dormir no colo, então, valha-me Deus e Nossa Senhora, que isso é um grude que não acaba mais.

Acostumar com banho junto, filme junto, tudo junto...é muito junto.


Cadê essa galera na hora de explicar o final de semana que Ana Clara passou comigo, mas totalmente desligada de mim?

Tirando umas duas "acordadas" sonolentas, em que eu ouvi um rápido "quero colinho...", eu nem a via. Ou melhor, eu via. Ali, com uma tia. Aqui, com o avô. A madrinha foi levar no banheiro. Chamou a amiga da mãe pra ajudar a varrer. Pegou a babá pela mão e foi mostrar o parquinho. Pediu pro padrinho ajudar a subir os degraus da brinquedoteca. O tio para balançar a rede. Todo mundo tentando dar comida, mas quando era eu ela desconversava, "não, tal pessoa já deu papá pra mim".

E pra mim? Um rápido "mamãe, eu vou nadar com o meu pai. Beijo, te amo".

Beijo, te amo.
Quando vier deitar, apaga a luz, tá bom?


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Ensaios sobre a Lógica

- Mamãe, o que você colocou na boca?

- Hmm... É... um chiclete.

- O que você colocou na boca do papai?

- ...um chiclete.

- Ah. Por quê?

- Porque a mamãe fica enjoada na serra, o chiclete ajuda.

- Eu também fico enjoada na serra.

- ... Fica, filha, mas é melhor então a gente abrir o vidro e deixar entrar o vento.

- ... Mamãe, dá um chiclete pra mim, por favor?

- Filha, chiclete não é legal. E nós estamos no carro, em movimento, é pior ainda...

- Mamãe?

- Oi?

- Você tá no carro?

- ... Ana, a mamãe está no carro, mas a mamãe é grande. Você é pequenininha, ainda está aprendendo como faz pra mascar chiclete. Tenho medo que você engasgue. É melhor mascar chicletes quando a mamãe estiver perto.

- ...

- ...

- Mamãe? Você tá perto de mim? Hein? A gente tá perto?

- ... Eu estou, Ana, mas estou aqui na frente. Vai que você engasga? Mamãe não vai conseguir te ajudar daqui.

- Ah.

- ...

- Mamãe?

- Eu.

- Tem mais chiclete?

- Tem.

- Não come tudo.


Adivinha o que ela me pediu quando nós chegamos em casa e descemos do carro?

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Meu irmão vai nascer! - ou da série, Como Crianças tem uma Super Imaginação

Domingo cedo. O Rafael e a Clara dormindo preguiçosos, eu me sentei no quarto que será do Lucas e comecei a cutucar as unhas com as ferramentas indicadas.

Escutei o barulhinho da Ana acordando e ela foi direto pro nosso quarto. Cutucou o pai:

- Papai... cadê a mamãe?

Enquanto o Rafael acordava, ela me viu de longe, sentada na poltrona do quarto do irmão, com a barriga de fora (culpa do pijama, que já ficou curto), e com vários objetos perfuro-cortantes nas mãos.

- Papai, acorda! Meu irmão vai nascer! A mamãe vai tirar o irmãozinho da barriga...!

Some-se a isso o fato de que minha barriga está gigantesca. Some-se a isso o fato de que eu passo os dias reclamando de dor na pelve. Some-se a isso o fato de que a gravidez da Ana durou 11 dias a menos que o previsto. Tenha sempre em mente que o Rafael estava acordando... e você vai conseguir imaginar um décimo do pânico que eu vi no rosto dele quanto chegou na porta do quarto perguntando se estava tudo bem...rs.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dramática

- Mamãe, vou levar a minha boneca.
- Não, filha... Nada disso. Deixa a boneca, por favor. Não dá certo, sair de casa pra caminhar levando boneca.
- Mas ela é o meu bebê!
- Eu sei, querida. Mas ela é forte.

Com um biquinho, guardando a boneca no guarda-roupa:
- Tchau, bebê... Eu vou sentir sua falta. Você vai ficar bem... Você é forte. Não chora!

E depois, na porta de csa:
- Escuta... Acho que é meu bebê. Ela tá chorando, tadinha...
- Você quer ir lá ver se ela está ok?

Dando de ombros:
- Nah. Ela vai ficar bem.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Capitalismo e as Lições

Ontem, nosso momento mágico de domingo à noite. O pai na sala colocando as séries em dia, eu e Clara no quarto assistindo a "Croods" pela trocentésima vez e chamegando. De repente ela deitou do meu lado, serena, e deu um suspiro. Aí esticou os bracinhos, me cutucando:

- Mamãe, eu não quero que você vá trabalhar.

Ela já sabe - é domingo, o outro dia é dia de ir trabalhar. Eu olhei pra ela, tentei respirar fundo, mas antes que eu respondesse, ela seguiu:

- Não, você pode ir trabalhar, para trazer moedas. Moedas para eu por no cofrinho. Mas pouco. Pode ir trabalhar bem pouquinho.

- Trabalhar só um pouquinho?

- É. Pouquinho. Para trazer moedas, colocar no cofre.

- Pra comprar o quê?

- Uma bicicleta para o papai.

Eu estava um pouco derretida, porque achei altruísta fazer o cofrinho para presentear o pai. Mas o cofrinho é dela, ela precisa saber disso:

- Papai já tem uma bicicleta... e o cofrinho é pra comprar alguma coisa pra você. O que você quer comprar pra você?

- Pra mim? - olhos brilhando - Pode ser... uma bicicleta!

Verde e azul. Ela quer uma bicicleta verde e azul.


Hoje cedo, Rafa me liga:

- Quando Clara acordou, perguntou de você. Eu disse que você tinha ido trabalhar...

- E ela?

- Ela ficou brava. "A mamãe trabalha muito!".

Só um pouquinho que podia, né, Clara? =*

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A ordem dos fatores

- Mamãe, olha! A bruxa mavalda!

- Degavarinho, mamãe... Degavarinho....

- E aí, chegou um bolo! Muito mau...!
- ...Um bolo, Aninha?
- É. Um lobo. Muito mau. Grrrr!


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Mundo Velho e Decadente Mundo

Tem dias que a gente se sente mais fora da curva, pausa para uma reflexão "eu no mundo e o mundo em mim". As minhas incompatibilidades últimas tem sido fortemente relacionadas ao universo dos filhos - mas não somente a este...infelizmente...rs.

Por exemplo.

Me assombra o número de pessoas que faz o comentário, depois que eu digo que espero um menino:
- Ah, que legal! Agora vocês vão parar, né?, já tem um casalzinho...

Eu fico na dúvida do que eu digo. Se digo que, realmente, no momento nosso plano é ter dois filhos. Ou se digo (o que eu tenho mais feito, ultimamente, não só por ser verdade como pela eterna satisfação de ver a perplexidade em olhares alheios), numa postura blasé, que acho que não dá sorte isso de ter um filho já pensando no próximo ou na ausência dele, que eu gosto de pensar em um filho de cada vez, e que daqui pra frente a gente vê o que será e como será. Ou se eu cedo ao meu coração, que tem uma vontade súbita de ser bem honesto e bem direto, num estilo "voadora", e dar uma palestra sobre planejamento familiar. Não vou parar porque tenho "um de cada", nem vou ter outro porque "agora virou a oração de São Bento, um pra fora e um pra dentro!". Eu e meu marido vamos continuar fazendo o que estamos fazendo deste 1999 - planejar o que queremos pra nossa vida, em todos os aspectos, e batalhar pra conquistar.

O outro comentário que me assola: "Que legal, um menininho! Menino dá bem menos despesa, e é mais fácil pra criar".

Bem se vê que essa gente de fato não me conhece, nem ao meu marido. Ao passo que o último batom que eu comprei foi em 2011, só pra não ficar (muito) chato com uma colega de trabalho que me ofereceu Natura, meu marido é o responsável por me avisar que preciso de roupas novas, porque essas não dão mais. Estereótipos - são estereótipos. Às vezes, a realidade não se baseia neles, e consegue ser simplesmente a realidade. É um fenômeno incrível.
E... meninos são mais fáceis de educar? Em se tratando de seres humanos, estamos perdidos. Seres humanos são insuportavelmente difíceis de educar (tá aí o mundo, que não me deixa mentir). Fico pensando em como é, nesse universo enlouquecedoramente machista, educar um menino. Para que ele respeite não só às mulheres mas também à sua essência humana, independente do que os amigos ou a sociedade espera dele. Não me parece muito simples, mas tô aí, empenhada em descobrir como se faz isso.

Há que se ter paciência.

Não. Há que se ter indignação.

E educar as crianças pra não reproduzir essas falácias.