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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Malhando

Não basta a médica recomendar que você faça alguma coisa - "porque essa criança vai ficar enorme, e haja assoalho pélvico, minha filha" - e você ter uma amiga-anjo que já tinha oferecido tempo, disposição, recursos, conhecimentos e amor, muito amor, pra por o plano em prática. Tem que ter filha-boneca atrapalhando ajudando todo o processo. E aí, lá pelas tantas, quando você tá se acabando no exercício:

- Mamãe, você é linda! Estou muuuuito orgulhosa de você.

Quando eu olho você, Ana, eu até esqueço meus fantasmas e fico orgulhosa de mim, também. Afinal de contas, foi de mim e do meu parceiro-príncipe que saiu essa riqueza sem fim. *-*

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Quase

- Como chama o bisavô, Ana?
- Palmito!

Era Milton. Tá quase.

Mais dramático era o caso do avô, carinhosamente chamado de Brunão, quando Clara tinha um ano e pouquinho.

- Vovô Bundão!

Agora já melhorou. Chama de "Vô Bundo".

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Mereço.

Do nada, me vem com a pérola:

- Ô, mamãe, tem que comprar roupa comprida... Você tá muito barriguda, essa sua aparece a barriga!

Mas... vê se pode.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Acordar

Sonhos. Às vezes, eles te mostram o que você tem mais medo de ver.

Hoje, no meu sonho, eu vi o meu medo maior. No sonho, eu fechei os olhos e senti meu coração parar, diante do meu medo.

Na vida real, abri os olhos. Olhei para o meu lado - e a Ana estava lá, dormindo, tranquila. Nem a crise de tosse apareceu para atrapalhar a noite dela.

Meu coração estava na boca. Fiz uma oração, porque ela estava comigo. E dormi de novo, ainda aos sobressaltos, mas ao lado dos meus amores, todos eles.

Não há nada que pague o sentimento de ver seguro quem se ama.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Cada dia, mais difícil

Quando ela era pequena, era muito simples. Eu ia até o berço, chamava, ela abria os olhos já sorrindo. Tantas vezes sorri antes de abrir os olhos, é assim a minha Ana. Eu colocava no peito, ela mamava, dormia sorrindo também. E eu vinha trabalhar, dilacerada, enquanto ela ressonava tranquila ao lado do pai.

Depois veio o tempo em que ela já não voltava mais a dormir. No colo do pai, me dava tchauzinho. Sorrindo. E eu saindo da garagem, chorando.

Mais uma guinada, ela continuava dormindo. Eu ia sorrateira até o berço, um beijo, um cafuné, "Deus te abençoe" e "mamãe te ama" - o sono dos justos. E mais um dia na estrada.

E agora... ah, agora. Agora é que a coisa ficou difícil de verdade.

Quando o filho nasce, a gente se acostuma que o negócio não vai ser fácil e vai ter muita lágrima envolvida. Muita culpa. Muita saudade. Mas se é na gente, ok, fizemos inscrição nisso aí. Não lemos nas letrinhas miúdas, mas tava junto - "ser pai e mãe, vem junto: horas sem dormir, culpa máxima, chorar com motivo ou sem". Mas se é neles...

E agora eu me pego nesse dilema. Todas as noites.

- Mamãe, você não vai trabalhar nunca. Eu não quero que você vá trabalhar nunca mais. Você vai ficar comigo.

E ontem, no ápice do domingo à noite, na voz de choro:

- Por que, por que você vai trabalhar? Eu vou ficar muito triste. Eu vou ficar brava com você. Eu não quero que você vá trabalhar, porque quero que você fique comigo!

Meu estômago deu um nó. De ver que, quando estamos juntas, ela está pensando no mesmo que eu - em quando não estamos, em como isso faz falta, em porque não pode ser sempre assim. Calei todas as vezes que o assunto veio à tona. Ela me pergunta "por quê? por quê?". Ontem ela me perguntou se era porque a gente precisa de "tutu". Como responder a isso? Como dizer a ela que eu trabalho para que tenhamos a nossa vida, sabendo que, em parte, o trabalho também nos toma uma parte desta mesma vida?

Dormimos abraçadas, depois do chorinho sentido dela.

Hoje cedo, ela estava dormindo quando eu saí. Dei um beijo no rosto, acertei as cobertas."Deus te abençoe, flor. A mamãe te ama". Muito.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Desculpar o quê?

No meio da crise de tosse, Ana assustou com o catarro desprendo da garganta. Caiu sobre o lençol.

- Mamãe... Mamãe, olha! Desculpa passar mal na sua cama!...

- Filha, não me peça desculpas por isso... Tá tudo bem!

- Olha, sujou tudo... O que a gente vai fazer, agora?

- Você vai vir no meu colo...e nós vamos dormir.

Ela dormiu, serena, a tosse passou. Eu fiquei fazendo carinho naqueles cachos, pensando quanto amor pode caber em mim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Saudade danada

- Alô?
- Mamãe!
- Oi, filha!
- Ô, mamãe, eu quis falar com você, porque eu tô muito sentindo a sua falta...
- Ô meu amor...
- Eu tô sentindo muito a sua falta, mamãe.
- Ah, querida, a mamãe logo...
- E, ó, acabô a batata. Acabô tudo! Você traz?

Hum.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Se liga, mãe

No supermercado:

- Posso ir ver os sabonetes? Sabe, mamãe, são os meus favoritos... É tão cheiroso!

E então, quando finalmente chegamos aos sabonetes:

- Mamãe, leva esse! (um sabonete bem comum, de, digamos, menos de R$1,00).
- Ah, filha, não sei... não gosto desse.
- Mas, olha, tem flores!
- Ana, mas a mamãe gosta do sabonete dela. Esse aqui. (um sabonete um pouquinho melhor, com hidratante, beirando os R$3,00).

Ela olhou atenta, um e outro.
- Mamãe, este aí, seu, é muito caro... Muito. Você não tem tanto "tutu", assim, pra ficar gastando muito...

E o pai, no meio da crise de riso:
- Sabe, ela tem um argumento...


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Quando você faz algo de errado

Às vezes a gente esquece, porque essa vida é muito louca. Mas não tem nada, nada, nada no mundo, que doa mais do que ver o seu filho mal.

Mal tem muitos sentidos. Mal pode ser depois de comer um pedaço de bolo a mais, ou pode ser triste. Ou pode ser com medo. Ou frustrado, assustado. Ou se sentindo só. Desamparado. E pode ter sido você que fez isso.

Nos dias ruins, de muita pressão, stress e problemas, você pode se exaltar. Você pode gritar. Mas adivinhe, talvez não tenha sido só o seu dia que foi ruim. Talvez o dia do seu filho também tenha sido ruim - ou até pior. Talvez ele tenha passado o dia triste ou assustado, ou desamparado, ou sentindo a falta de você e do seu acalento. E você grita. Ou nem grita, mas fica muito, muito brava. E é a gota d'água.

Eu olhei pra Clara e vi que ela estava mal. Ela estava triste, assustada, desamparada ou com medo, ela estava tudo isso, ou apenas se sentindo só. Vi as mãozinhas dela cobrindo os olhos, simplesmente para não encarar o meu olhar avassalador de "você está fazendo algo de errado!". E na impossibilidade de ver seus olhos, aqueles dedinhos apertados sobre eles me serviram como um espelho. E a voz de dentro do meu olhar ecoou de volta, também - VOCÊ está fazendo algo de errado. VOCÊ. Você, era eu. Eu estava fazendo algo de muito errado. Eu estava achando que educá-la era mais importante do que fazê-la sentir amada, ou protegida, ou segura, ou seja lá o que tenha sido que ela não estava se sentindo, no instante do meu olhar feroz, e a fez ficar mal.

Estaquei. Ela sussurrou "eu quero o meu pai".

Segurei ela forte. Quando ela afrouxou a guarda, a puxei para dentro do meu abraço. Nós duas suspiramos. Ela estava chorando, e eu por dentro estava em frangalhos, odiando ser adulta e não poder chorar também. Disse a ela tudo que eu queria dizer, inclusive a coisa mais honesta - "me desculpe". Disse o que ela tinha feito de errado, disse porque eu tinha ficado tão brava, disse que eu também estava brava com outros problemas que não eram dela e que isso não era justo, disse que ela não poderia me desrespeitar, mas que eu nunca gostaria que ela se esquecesse que eu a amo, só quero seu bem, e que nós somos um time, estamos do mesmo lado. E, por tudo isso, me desculpe.

- Eu te amo, mamãe. Desculpa.

Às vezes sinto que estou tão obcecada em fazer a coisa certa, que passo por cima da coisa mais certa de todas - fazer Clara se sentir bem. Você pode pensar que o importante é ensinar a criança a comer nas horas certas ou as coisas certas, ou a se deitar quando você pede e a guardar seus brinquedos. Mas nada disso criará o cidadão digno que o amor criará - eu acredito nisso. Essas coisas todas, as outras, fazem parte, mas não podem ser maiores que essa outra. E não tem a ver com mimar ou dar tudo ou aceitar tudo - na verdade, não poderia estar mais distante disso. É conseguir não fazer essas três coisas, criando um cidadão seguro e confiante.

Ela dormiu nos meus braços, tranquila. Confiando. Como um filho pequeno confia em seus pais, ninguém confiará em outro alguém. Chega a dar um nó na garganta.

No dia seguinte a esse relato, cheguei em casa do trabalho e ela veio me encontrar na garagem - sorrindo, feliz com a minha presença, esticando os bracinhos, reclamando saudades e perguntando de surpresas. E nós escrevemos uma história diferente da véspera, mais doce, mais serena, e mais cheia de amor. Reescrever, é preciso.