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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Coisa de Criança

Quando seu filho nasce, você é apresentado a esse conceito: "coisa de criança".

Quando seu filho tem uma "coisa de criança", isso significa que ele está doentinho - de algo que, graças a Deus, não é nada, mas que para você é tudo.

Se seu filho tem uma "coisa de criança", todo mundo está tranquilo, porque logo isso vai passar - é só a garganta, o ouvido, uma alergiazinha, alguma coisa que atacou o estômago. Mas você está desesperada - se já vai passar, por que simplesmente não passa e nos deixa em paz?

A "coisa de criança" é examinada malemá pelo médico, que já viu aquilo só umas quinze vezes, nessa tarde. Você, no entanto, ficará uns três dias acordando de madrugada pra dar o remédio e se perguntando "será que não era pra já ter passado? Será que o diagnóstico está certo? Ele nem olhou meu filho direito...".

E, por mais que a "coisa de criança" te tire o sono e o sossego, no fundo, no fundo, você vai rezar secretamente para que tudo, cada tombo nessa vida, seja só uma "coisa de criança", e nunca outra coisa.


Clara está ótima, graças a Deus, não foi ela quem motivou esse post. Só me peguei envolvida com fotos das crianças em Gaza, do menino que se aproximou demais de um tigre, a notícia da mãe que atirou o próprio filho contra a parede, com histórias que crianças nunca deveriam viver. Que nossas crianças estejam protegidas, de todo o mal. *suspiro*

terça-feira, 29 de julho de 2014

Coisas que me dão coisas

Coisas que eu não digo pra Clara, e me dão comichões quando alguém diz:

"Isso não é coisa de mocinha" ou a versão piorada "Isso não é coisa de mocinha direita".
Exemplo do que motivou: sentar no chão, de vestido, com a calcinha aparecendo. Clara continua tendo só 2 anos.
Sério? Sério? O que é uma coisa de mocinha? Li um romance do século XVIII que muito se assemelha a sua visão do que é uma "mocinha", minha senhora, e nem um pouco a minha visão do que eu penso ser uma mulher jovem feliz e realizada. Tanto jeito pra pedir pra criança sentar direito, tem que escolher pelo jeito machista (e, na boa, datado)?

"Ah, é que isso é coisa de menino" ou "Isso é coisa de menina".
Exemplo do que motivou: ela quer comprar um carrinho ou pergunta porque um menino não está usando brincos.
Eu acredito em homens. Acredito em mulheres. Acredito que nós temos diferenças e semelhanças. Não acredito em coisas de um e coisas de outro. Não quero criar minha filha cheia de preconceitos. Quando vi Clara oferecendo, entusiasmadamente, um batom para um amigo nosso, que não sabia muito bem como agir, eu disse o simples "ele não gosta de batom, filha, nem todo mundo gosta". Funcionou, ninguém se ofendeu, e eu não comecei a incutir nela uma coisa que a sociedade já vai fazer o desserviço de tentar incutir.

"Vai te dar dor de barriga!" - ou, de cabeça, de ouvido, ou resfriado, ou gripe, ou "vamos ter que ir ao médico" ou "vai precisar de injeção", ou ainda "você vai cair daí e machucar".
Exemplo do que motivou: esse não precisa de exemplo, é auto-explicativo.
Essa, sem dúvida, é a ideia mais idiota que alguém já teve. Com poucas palavras, você consegue: a) fazer irrelevante o julgamento do seu filho (pode não ser grande coisa, aos seus olhos, neste início de vida, mas lembre-se que estamos tentando criar um ser humano, e não um bonequinho de dar corda); b) colocar uma ideia potencialmente negativa no seu filho (um dia Clara comeu um pedaço mais generoso de pão e me disse, preocupada, "ih, agora vai me dar dor de barriga..."); c) criar uma resistência pra quando realmente precisar levar a criança no médico, o que já não precisa de muitas resistências adicionais. Aqui em casa o genérico, "não faz isso, filha, que é perigoso/não faz bem pra você/mamãe fica preocupada que você se machuque" funciona perfeitamente bem, e eu não me sinto um oráculo do agouro.


Clara continua ouvindo as coisas que eu não falo, pelo menos uma vez ao dia, de outras bocas - o que gerou a preocupação com o negócio de comer um pedaço maior de pão no outro dia, e tantas outras preocupações.

Aí eu desabafo no blog.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Dividindo

Sei que não é bom isso de ficar comprando doces pra criança. Eu mesma sou uma obcecada rastreadora de balas e chocolates, já ralhei com tias, babá e amigos em geral - menos, bem menos doces.

Mas o kinder ovo era do Rio. Ana adora as araras azuis, vai que a gente tira uma...

Lógico que não tiramos. Lógico. Tiramos a cacatua do mal, mas ela se divertiu mesmo assim. Fez pouco caso do chocolate, "vou montar este, primeiro".

Depois veio atrás de mim, pediu o chocolate, eu disse onde estava, pode comer?, pode. Daí me estende uma metade:

- Mamãe, vamos dividir. Este é seu.

Peguei o chocolate duvidosa, agradeci. Eu tinha trazido pra ela. Mas tinha a opção de não só confirmar o que eu venho ensinando, que a gente tem que dividir, como de reduzir a ingestão de açúcar (dela, obviamente). Aceitei. Quando ela estava na metade do pedaço dela, eu já tinha terminado o meu.

- Mamãe, o seu já acabou?

- Já. Estava uma delícia, obrigada, Clara.

- Quer mais um pedaço do meu?

Dessa vez, eu agradeci de novo mas disse que não. Ela é doce que só, deixa ela comer o chocolate...

terça-feira, 22 de julho de 2014

Dias bons

Não bastasse a criança estar, assim, linda e educada, bem humorada e brincalhona, falante e extrovertida, ficou radiante quando viu que eu tinha trazido chocolate.

- Meu favorito!

O da vaca, lógico. Os outros ela não liga. Senti um arrepio na espinha, estávamos nos preparando pra jantar, vai que atrapalha o apetite...

- Mamãe, vou deixar guardado aqui em cima, pra gente comer depois de papar, tá bom?

Mãe que derrete, sou eu.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O incrível "importar-se"

Quando eu fico brava com a Ana - e danados hormônios da gravidez, que ultimamente eu ando muito brava -, uma reação involuntária do meu corpo é franzir o cenho. E eu sei disso, porque a Ana me disse.

Nós conversamos, ou eu dou uma bronca, ou o que seja. Ela se aproxima, estica as mãozinhas para o ponto entre os meus olhos e estica, tentando desfazer a todo custo as rugas ferozes que estão lá:

- Não fica triste, mamãe. Me desculpa.

Como todos nós já achamos um dia, ela também acha que pedir desculpas é o botão "reset". Que vai ficar tudo bem instantaneamente. Mas numa semana difícil, não funciona assim:

- Por que você não está feliz, mamãe? Por quê? Desculpa, mamãe.

E os dedinhos insistentes, esticando meus supercílios, tentando desfazer aquela cara de "mãe brava" que ela detesta.

A Ana Clara se importa. Ela está naquela idade mágica em que a mãe triste é um problema que afeta todo o mundo dela, e quando ela é responsável por isso, a culpa é avassaladora. E, quando não é responsável por isso, me corta mais ainda o coração...

Nós estávamos numa missa. Não frequento à missa sempre, mas tenho cá minha religiosidade. E estava passando um pedaço tão complicado que, quando comunguei, conversando com Deus, as lágrimas rolaram pelo meu rosto. Eram em parte um desabafo, eram muito um agradecimento. Porque tudo tinha passado - mas tinha passado, e eu tinha ao meu lado (e dentro de mim) as minhas maiores riquezas.

- Mamãe, não chora! Mamãe, vai ficar tudo bem, mamãe. Não precisa chorar!

Ela me abraçou, me beijou. A voz embargada.

- Papai, a mamãe tá chorando! - algo como, "como fazemos isso parar, agora?" - Não chora, mamãe, eu te amo.

Quando eu sorri, ela sorriu junto, ficou na dúvida:

- Se você está feliz, por que você está chorando?

Com tempo, a Ana vai entender como conseguimos estar felizes e chorando ao mesmo tempo, e como ter ela do meu lado naquele instante fez a cota de choro de agradecimento ser muito maior do que o choro de desabafo. Por hoje, quem precisa entender sou eu. Que tudo, no seu cerne, é simples. Simples e grandioso. Como o amor puro dessa minha criança...

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Cama Compartilhada - e cadê o neném?

Coisas que eu já ouvi por ter optado pela cama compartilhada:

- Criança tem que dormir na própria cama. Depois vai dar muito mais trabalho.

- Vai ficar muito dependente de você, atrapalha a autonomia.

- Vai atrapalhar seu casamento. (em tempo: a gente leva a Ana pra cama dela, depois, ela não fica "amarrada" na nossa cama. de verdade).

- Vai atrapalhar o desenvolvimento da independência dela.


O que aconteceu ontem à noite, enquanto papai e eu líamos na sala:

- Cadê a Ana? Tá tudo muito quieto.

- Vou ver.

Dormiu. Na cama dela.

Saí de manhã e ela estava dormindo, ainda, mas hoje à noite vou reclamar - cadê o meu boa noite?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Aí o neném...

No meio do relatório dos infernos, cheio de problemas dos infernos, que são de arrepiar os cabelinhos e estragar a tarde. Aí o neném mexe.

<3

A gente tava falando do que, mesmo?

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Da solidão e outras histórias

Ontem me bateu essa solidão, assim, que nada resolve. Eu estava sozinha com a Ana, mas não era solidão de companhia. É uma solidão que eu só conheci quando estava grávida da própria Ana, e percebi que nada no mundo poderia curá-la - nem meu marido, nem nenhum amigo, nem minha mãe. Acho que é a solidão de quando a gente se dá conta de que a ampulheta virou, que nosso tempo de filho passou e começou um outro tempo (com muitas mais responsabilidades, com muitas mais coisas sobre os ombros). E você - e você só - tem que encarar.

E então eu a senti, de novo. De mansinho. Essa solidão calada e profunda. E a Ana estava lá.

Eu não tive uma reação. Eu não chorei, nem resmunguei, nem suspirei, nem nada. Eu simplesmente fiquei lá, sentada, olhando pra ela enquanto ela se divertia com o Lego, e me sentindo profundamente só. E então ela levantou o olhar pra mim, aquele olhar que já sorri antes dos lábios acompanharem:

- Mamãe, você tá bem?
- Estou, filha.
- Você quer brincar de Lego comigo?

Pensei no Lucas, na hora. Pensei em como será ter os dois ao meu lado, e como esse laço é tão rico e poderoso.

- Já, já.

Quando ela nasceu, eu sabia que estava ganhando uma filha e uma companheira. Mas como imaginar o que a Ana significaria pra mim? A importância deste olhar, deste mimo. Desta presença.

E olhei pra ela de novo. E a solidão tinha diminuído, um pouquinho.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Só pra dizer, obrigada

Das coisas que a gente vê nessa vida, e olha que há coisas que a gente nunca deveria ver nessa vida, a que mais me agonia é a impotência dos pais diante dos tombos que seus filhos levam.

Crianças sensíveis, crianças alérgicas, crianças doentes. Mesmo quando não são crianças mais. Nada pode levar um pai ou uma mãe à loucura tão rapidamente quanto seus rebentos.

E aí... a empatia. Lendo por essa internet um sofrimento que não é meu, mas que me tocou fundo - como ficar imune à dor de uma mãe? -, me calou lá no fundo uma certeza. A certeza de ser grata.

Grata a Deus, ao universo, ao destino, a essa energia mística que faz o mundo, qualquer que seja ela, pela Clara, pela saúde da minha Claraboia. Pelo seu sorriso, seu estômago de avestruz e a sua resistência. E pela saúde do pequenino, que aqui na minha barriga está se tornando cada dia mais forte para vir viver a aventura aqui do lado de fora. E pela saúde minha, do Rafa, das nossas famílias, de todos que amamos, para viver conosco esse momento tão mágico.

Só pra dizer. Obrigada.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Peppa Pig, por quê, oh, Deus, eu me pergunto!

- Clara, lembra no ano passado, quando você fez dois anos? E a gente comemorou enfeitando tudo de Cocoricó...?
- Lembro.

Suspiro.

- Eu quero de novo, mamãe! Eu quero o Cococoral.
- Então, mas este ano já vão ser três aninhos... Vamos fazer festa de outra coisa, né?
- Da Peppa!

Emudeci.

- Da Peppa, mamãe!
- Ah... Ana, que tal a Dora?
- Não, a Peppa!
- Ou do Gru... Lembra, você tinha falado do Gru! Dos Minions...
- Não, da Peppa! - reforçando bem o "Peppa", vai que eu sou surda - Eu quero da Peppa, mamãe, por favor.

Ok. Mês que vem a gente conversa de novo.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Light

Eu me esbaldando na maçã-do-amor.
- Você quer?
Fez que sim, dei um pedaço da coisa toda.
- Quer mais?
Fez que sim com a cabeça, daí apontou a maçã:
- Só desse.
- Só a maçã?
- É.
- Sem o doce?
- É.

Crianças de hoje em dia.
Depois ficou triste que a maçã acabou, e eu me deliciei na calda que eu adoro.

Pra você saber, Ana

Quando a mamãe ficou grávida, a sua reação foi essa:
- Filha... Lembra que a mamãe te falou que queria que você tivesse um irmãozinho? Então, você vai ganhar um irmãozinho...
(rindo) - Nãaaao....
- Vai, sim... Ó, tem um neném na barriga da mamãe.
 (rindo mais ainda) - Nãaaao, mamãe!

Depois que você entendeu que realmente ia ter um irmãozinho:
- O que você vai ganhar?
- Um irmãozinho.
- E onde ele está?
- Na minha barriga!
- Não, filha... na da mamãe...
- Mas eu quero na minha!

Quando eu te perguntei o que você achava que era:
- É uma menina!
- E como vai chamar?
- Anabel.

E depois, quando falei que era um menino:
- Como vai chamar seu irmão, Ana?
- Anabel.
- Mas é um menino...
- Anabel.

E quando eu te disse que era o Lucas:
- Sabe quem está na minha barriga? O Lucas.
- Não, mamãe... é meu irmãozinho!
- Seu irmãozinho vai chamar Lucas, filha.
- Ah... Não pode ser Woody?

E nos cinco minutos depois disso:
- Mamãe tem meu irmãozinho na barriga. O Lucas.

Amor maior não há. Filhos.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Drama Escolar

Eu sempre bradei aí aos quatro cantos que respeitaria o tempo da Clara. Essa sempre foi, no fundo, a minha meta mais séria. Não pode gritar, não pode deixar tudo, mas o que mais não pode, sob nenhuma circunstância, é ignorar o tempo da minha filha em prol do meu tempo.

Como era de se esperar, com uma premissa dessas, estou prestes a levar uma rasteira.

Eu acho que Ana Clara quer ir para a escola. Ela fala, ela mostra, ela pergunta, ela junta as coisinhas dela e põe numa mochila. Ela quer mais crianças, ela quer muitas coisas. E eu acho, sendo mais honesta comigo do que estou pronta para ser, que Clara está pronta para ir à escola.

Ela saiu da fralda, ela quase consegue se virar sozinha no banheiro, ela está se comunicando.

E eu estou em frangalhos, porque não estou certa se quero que Clara vá para a escola.

Me falta aquela coisa que sobra nos pais: "porque fulano, foi com tal idade para a escola, e já conta até tanto, e já fala tal língua, e tem amiguinhos, e a escola foi ótima..." e blá, blá, blá. E todo aquele papo de independência e tal.

Bom, vamos por partes.

Você consegue ensinar macacos a contar. Sério. Isso não é grande vantagem.

Se eles vocalizassem, talvez fosse capaz de ensinar as cores em inglês.

O drama é como isso é feito. Estamos criando pessoas robóticas. As escolas tem como meta o vestibular. O vestibular! A que ponto chegamos, é ridículo. Não precisa preparar pra vida, não precisa ensinar raciocínio, não precisa despertar questionamento: passou no vestibular, tá beleza. Eu tenho vontade de chorar. Quando foi que uma prova passou a ter mais importância que todo o resto? Que a vida inteira?

E as crianças das escolas... Meu Deus. Como eu sofri com os colegas da escola. Sim, chega uma hora em que a loteria se prova e você conhece alguém que faz tudo valer a pena. Mas das centenas de colegas que eu tive, não tive 10 que me fizeram ter prazer de encontrar durante as aulas. Crianças mesquinhas, mimadas, materialistas, obcecadas com imagem e com status, quantas dessas cruzaram o meu caminho e nós nos odiamos mutuamente?

Não me acho perfeita. Só acho que a escola está um tanto distante dos meus valores mais sérios. E aí dá um medo profundo enfiar a Clara nesse lugar - no lugar em que eu fui feliz e infeliz, em que aprendi tanto e aprendi coisas que nunca deveria ter aprendido, como o fato de que as pessoas não são confiáveis e de que por trás de tudo que se lê numa lousa há um princípio coercitivo.

Não sei se estou pronta. Estou sofrendo por antecipação. E quanto mais eu converso com outros pais, orientadores pedagógicos, professores, mais eu sofro. Não deveria ser o contrário? Eu achava que isso aumentaria minha segurança, minha confiança, mas o que essas pessoas me dizem, o que elas usam como valor...

Numa entrevista em uma escola, perguntei a orientadora sobre método. E ela me disse "usamos o livro de tal empresa-didática-que-eu-deveria-achar-o-máximo-só-que-não". Ah. Ok, então. E o método? Dá-lhe um nó na língua e, no final das contas, é isso mesmo - as crianças sentam, os professores falam, e haja princípio cristão passando por baixo da porta. Como boa cristã, fiz o sinal da cruz pra me proteger desse lugar, e risquei na listinha.

Não posso proteger a Clara do mundo. Mas quero a Clara madura para encarar o mundo - para não fingir que gosta das Chiquititas só pra enturmar, ou que não gosta a partir de uma certa idade pelo mesmo motivo. Quero que ela seja tão estranha quanto quiser ser, e tão feliz quanto se permitir.

E que venham os novos desafios. Vamos encarar juntas.