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terça-feira, 8 de abril de 2014

Porque o tempo

Porque eu me peguei olhando pra ela e pensando que um dia eu não a conhecia. E já a amava tanto.

Porque ela me disse que precisa do meu colo, que é muito bom, só um pouquinho, por favor.

Porque eu passei uma manhã inteira cantando um dos temas musicais de "A Noviça Rebelde", já que era a única coisa que fazia Clara parar de chorar porque queria dormir no colo e eu precisava lavar as roupinhas dela.

Porque ela pegou um dos meus colares e disse que era um bebê, e cantou para ele dormir bem baixinho. "Seu bebê é uma cobra?". "Shhh...dumiu".

Porque o pai dela, amor da minha vida, virou amor amor maior de duas Anas. "Eu adoro o papai. Adoro o papai".

Porque eu me maravilhei quando ela percebeu que tinha mãos, e hoje me maravilho porque ela diz que "isto é um triangulo, eu gosto" ou "me parece um círculo" e "gosto muito do meu vestido rosa".

Porque ela me diz que está triste, que está feliz, e me pergunta se eu fiquei triste ou se estou feliz, e dá-lhe beijos.

Porque o tempo é implacável, e para o tempo, só o tempo.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

O oitavo chacra

É coisa de filosofia alternativa no ocidente e não-alternativa pras brandas de lá do oriente isso de que o corpo humano tem sete chacras, que distribuem a energia do corpo e podem ajudar (ou nem tanto) na sua saúde física, mental, espiritual. É este o breve resumo do meu diminuto conhecimento.

Pois há quem se aventure e coloque no mundo, com pernas próprias, seu oitavo chacra.

O que seria a Clara, se não o centro de distribuição energética não do meu corpo, mas de toda minha casa? Se o chacra está bem, tudo está bem, e se o chacra desequilibra...tudo desequilibra.

Em tempos de começo de inverno e resfriado que quer pegar, sou lembrada constantemente - com coisa que me fosse possível esquecer - de como ficou impossível desassociar minha existência da dela. Não num sentido patológico, em que eu a queira limitada e embotada por uma forma de amor opressor, mas naquele outro sentido, em que eu quero que ela seja plenamente capaz de viver bem sem precisar de mim, sempre ciente de que sou completamente incapaz de viver se ela não está saudável e alegre e saltitando e pintando as portas com os lápis-de-cor que eu esqueci a uma altura alcançável.

Quando eu estou gripada, estou gripada. O meu corpo fica prostrado e tudo que eu quero fazer é me aninhar debaixo das cobertas e assistir às dez temporadas de Friends.

Quando ela está querendo ficar gripada, um nariz escorrendo, uma tosse, eu quero simplesmente achar o interruptor que a gente aperta e faz ela deixar de querer ficar gripada. Eu quero que a gripe seja transferida, via TED, com compensação imediata, para o meu organismo - arco com as tarifas ou despesas da transação. Fico tomada por essa impotência enlouquecedora que é ser mãe. E ser mãe é uma impotência do cacete, com todo respeito.

Mas ainda assim, ser mãe é o que eu sou com mais afinco.

Falando nisso, ontem, eu resolvi ser o esquilo para colocar o pijama nela, e depois fui a girafa para levá-la até a cozinha para fazer o leite.
- Girafa, não! Não quero!
- Então quem você quer que eu seja?
- A mamãe! Eu gosto mais da mamãe.

De todas as pessoas que eu posso ser, Clara, a que mais gosto de ser é sua mãe.