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terça-feira, 27 de junho de 2017

Sobreviver e prosperar

Clara tem rifa de festa junina na escola para vender. Eu acho péssimo.

Respeito a escola, entendo que é um direito, uma escolha, talvez a única forma encontrada para viabilizar a festa... enfim. Continuo achando péssimo. Aquele negócio, concordo em discordar.

Expliquei pra Ana Clara. Olha, eu acho um saco, isso. Acho um saco você ter que vender a rifa, acho péssimo o incentivo ser uma competição que termina com os títulos "mister" ou "miss caipirinha" (SÉCULO XXI, J-E-S-U-S), acho a cereja do bolo que o prêmio para o mister ou a miss caipirinha seja um Iphone - fruto de trabalho escravo de algum porão obscuro que serve para emburrecer crianças. E adultos. Eu tenho um Iphone, estou sendo conivente com trabalho escravo e estou emburrecendo com meu tempo no celular - mas SEI disso. Não tenho 5 anos e estou sendo incentiva a vender o máximo de rifas para a escola.

Bônus track: para você ganhar, tanto o prêmio da venda quanto o prêmio da rifa, todos os outros terão que perder. TODOS OS OUTROS. Eu acho muito cruel pra ter isso na minha conta. Lembro de, quando criança, entrar nas rifas dos outros pensando, ai, eu não quero ganhar. O que eu vou fazer se ganhar? Não parecia justo. Não parecia correta. Parecia a meleca que é, mesmo.

Expliquei também o lado positivo. Me esforcei, sabe. Ela vai participar de uma questão da escola, e é importante se engajar. Ela pode usar essa oportunidade para socializar. Aprender a negociar. Aprender a mexer com dinheiro - receber, dar troca, até a cobrar. Concorre aos prêmios, como sabido. Enfim, como tudo na vida, nada tem um lado só. Aproveitei pra dizer que, mesmo eu achando a rifa uma bosta, ela não precisa achar. Ela é um ser único e independente que está aprendendo a formar seus pontos de vista - e eu respeito.

Como meio-termo: a gente manda o dinheiro, viabilizando a festa, mas não participa da rifa.

Ela me olhou analítica.

- Eu não quero participar, não. Pode escrever aí, pra tia.

- E se ela perguntar por quê...

- Vou dizer que a gente não sabe se quer participar disso. Mas que quer festa.


Quando você expõe a seus filhos a opção de ser nobre, em grande parte não ensina a eles a arte da sobrevivência no mundo cruel e cheio de ganância. Mas, sabe, quem sabe meus filhos prosperem. Quem sabe eles sejam melhores que o mundo. No mesmo valor de todos, ninguém é mais que ninguém, mas melhores do que a mediocridade de se curvar e perpetuar o establishment. Eu acredito.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Guerreiros, meninos, reflexos do feminismo e empatia

As postagens machistas do 09 de março, as coisas que eu não resolvi no trabalho, as ausências doloridas e os hormônios me deprimiram, ontem. Cheguei em casa chateada e fui fazer o que as pessoas chateadas fazem melhor: curtir fossa.

Cuidei de tudo, ajeitei as crianças, escovei os dentes e depois de tudo pronto coloquei meu pijama, sentei na sala escura e fui ouvir um mix bem deprê do youtube. C'est la vie.

Comecei com a Dança da Solidão, na voz da Marisa Monte e do Paulinho da Viola. As músicas foram se sobrepondo, Ana Clara e Lucas apareceram, dançaram solenes, ela me perguntou porque eu estava triste, o Lucas ficou preocupado e disse dois ou três "não chora, mamãe, não chora", saindo desbaratinado pra buscar um papel pra mim e avisar o pai (no melhor estilo, "alguém acuda, mamãe está chorando!").

O YouTube acionou o mix automático, lá, de repente estava tocando "Guerreiro Menino" do Fagner. E aí... Aí Ana Clara acionou a Ana Clara que tem dentro dela e tomou as rédeas. Quando ele cantou "não dá pra ser feliz", ela parou na frente da TV:

- Tá vendo, mãe. É isso que tá errado. Quando ele canta, "não dá pra ser feliz", lá dentro de você, você tem que gritar "DÁ PRA SER FELIZ"!

E, não sei muito bem como, em uma fração de segundo ela e o Lucas estavam dançando no meio da sala, gritando, aos berros, "DÁ PRA SER FELIZ" muito mais alto do que o Fagner cantando que não dá. Me dei conta que estava no fim chorando de rir, assistindo absurdada aos meus cantores dançarinos.

É. Nada como ser chamava de volta à realidade.

Com essa turma, acho que economizo bastante com psicólogo. ^^

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Derretendo, parte 1.234

Ser mãe é uma coisa louca, mesmo. Você oscila entre "Jesus, essas crianças vão me deixar doida" a "Mas cadê todo mundo? Por que não tem ninguém em cima de mim?" em cinco segundos. É assim que passa. Um piscar de olhos.

E o Lucas.. como Lucas tornou a maternidade intensa, pra mim. Real. Inteira. Verdadeira. Surtante. Cativante. Ter dois filhos torna TUDO exponencial. As dificuldades e o amor. O desespero e os prazeres.

E agora, ele está um mocinho. Clara está enorme. Ela está quase lendo e ele me surpreende com os encontros no corredor.

Eu tinha tomado banho e já estava vestida:

- Mamãe? baiá?

- Vou, meu amor. Vou trabalhar.

- Saí?

- É, a mamãe vai sair pra trabalhar.

- Ahhhh...  - muxoxo, com biquinho - Não pó ficá?


Não posso.

Não posso ficar.

Mas quando volto, volto para o meu lar. E, quando saio, levo o lar no meu peito...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Presença

Saindo de casa, o pedido:

- Mãe! Hoje deixa cair um pouco de jambolão no seu carro?

Perplexa:
- Oi!?

- É, que daí a gente pode brincar junto de limpeza.


Na frase dela, me marcou o "junto". Pode ser pra limpar o carro, pode ser até jambolão, se for junto. ❤️

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os crescidos, pero no mucho

Ana Clara e a eloquência.

- Mamãe, olha aqueles brinquedos!
- Muito legais - brinquedos do shopping, aquele mini parque de diversão.
- Você gostou?
- Gostei...
- Porque, sabe, se você gostou, eu e o Lucas estamos disponíveis pra brincar, se você quiser...


- Alô?
- Oi, mamãe!
- Oi, filha!
- Mamãe, sabe, o tempo não está muito bom aqui, agora, mas será que depois que parar de chover... Sabe, eu tenho pouco dinheirinho, mas se você puder emprestar do cofrinho, e parar de chover, eu posso ir comprar revista? Uma pra mim e uma pro Lucas?


E aí ela me lembra que tem cinco aninhos.
- Mamãe, minha gaita quebrou. Mas eu pedi outra pra Dedé.
- Filha! Não faz isso!... Ela deu a gaita, quebrou, fala pra mamãe. A gente resolve. Não fica pedindo pra ela.
- Hum... Desculpa. Se você quiser, eu "despido"!


E Lucas teve o episódio em que eu disse que já íamos sair do banheiro, ele entendeu que íamos sair de casa. Trocou o "êeee! saí!" por um muxoxo "aaaaaah"... E depois ficou andando no corredor "qué saí, mamãe. Pasiá!".

<3

sábado, 7 de janeiro de 2017

Os empoderados

Ontem saí de casa com meu bebê sem fraldas.

Ensaiando várias respostas. Ensaiando o que teria que dizer pra peitar as crianças maiores se ele fizesse xixi no meio delas. O que eu ia dizer pro moço do shopping se tivesse um cocô no corredor. Levei a mala de roupas. Outra mala com um tantinho de fraldas.
Na minha covardia, tentei a persuasão:
- A gente vai sair. Você não acha melhor ir de fraldinha?
- Hmmm... não!

Eu acredito em respeitar o momento e em empoderamento infantil. Repeti isso três mentalmente umas vezes, peguei o meu monte de malas e fomos.

Vi Lucas parar de brincar pra vir comer.
Depois parar de brincar pra vir comer de novo.
Pelas tantas, me sinalizou apressado e corremos para o banheiro.
Voltou e fez mais umas três pausas pra beliscar uma coisinha.

Antes de ir pra casa, vi Rafael com os dois no colo, olhando uma coisa qualquer. Eu estava convenientemente para trás, então tudo me veio a cabeça.

Como eles estão grandes. E como o Lucas cresceu em uma semana. Como eu os amo. Como em parte ter dois filhos é meio montanha russa, então é preciso muito comprometimento para curtir a infância do menor e, ao mesmo tempo, não forçar o maior a uma maturidade precoce.

Essas coisas todas foram me passando, me atropelando. E eu me comprometi de novo.

Respeitar o momento deles.
Empoderá-los.
E me entregar.

Por que a vida vai atropelar a todos com essa coisa que se chama tempo. E eu quero ter vivido ao lado de quem amo intensamente.

<3

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pano branco

Era uma fraldinha do Lucas. Cobri, limpei boca, usei de fralda mesmo quando as alergias atacaram.

Agora é cobertor de boneca.

Já foi bandana de pirata.

Véu de noiva.

Saia.

Kilt.

Vestido.

Toga.

E hoje me escondia.

- Cadê a mamãe? - eu perguntava, o olhar perdido na imensidão branca que me cobria o rosto.

A voz fininha de menino-moleque vinha do outro lado:
- Não tá atí!

De repente, depois de tanto me achar e me esconder, sucessivamente, saiu correndo:
- Tasmaaaa! Buuuu! Aaaaaah!

Eu era fantasma. Bu. Corram, crianças!


Que nunca se perca a incrível habilidade humana de ver para além do olhar.